Cabral-Portão (ou : Trecho da autobiografia de um trabalhador brasileiro, mais ou menos lembrado por terceiro) 0 558

postado por Marcola.

Às vezes acontece que o sujeito, por não identificar opção melhor na hora, presta atenção às conversas do ambiente. Ater-se aos métodos narrativos, histórias, estórias e contextos que não tem a ver com você gera uma espécie de conforto. Aquele que sente a pessoa que olha as situações de fora. Que não pertence ao mundo retratado e, por isso, não precisa se preocupar com os problemas dele. E é sempre uma massagem no ego a idéia de que seria possível lidar melhor com algumas das mazelas do mundo dos outros.

O rapaz entrou no ônibus e sentou-se perto do cobrador, que conversava com o motorista, e tornou-se ouvinte atento. E por alguma razão que Deus deve saber e não conta para ninguém, o cobrador deixou de lado o papo-que-não-leva-a-lugar-nenhum, e resolveu apresentar uma autobiografia, sem se preocupar com a idéia de escolher o público. E começou.

Era homem de quase 30 anos, casado, uma filha pequena, turno de pouco menos de seis horas no trabalho, salário aproximado que não publicarei para evitar atitude deselegante, assinante descontente de uma empresa de TV a cabo,  sócio do Coritiba Football Club, e com a mente cheia de lembranças divertidas da juventude. De quando era mais jovem no caso, que a juventude tem muito a ver com a atitude mental, e pouco com o número de outonos vividos (e os dele nem eram tantos, de qualquer forma).

Das lembranças da juventude do cobrador, no entanto, um personagem chamou a atenção do ouvinte mais que os demais personagens e situações.

Um garoto com problemas psicológicos que queria bater nos amigos, quando bêbado em eventos sociais. Com uma poupança estimada em R$ 35,000, B. era filho de um empresário, e promovia festas quase semanalmente em sua casa, que parecia um palácio. O curioso é que lá pelas tantas da bebedeira, B. resolvia agredir os colegas, com socos e ofensas verbais. Fazia-se necessário então que uma comitiva de “amigos próximos” (e isso incluía o hoje cobrador, que dava risadas nesse momento da narração) prendesse B. em seu quarto, isolando o dono da casa dentro de casa. Privando o festejador da festa.

Enfim. Disse algum sábio que existem três verdades. A de um lado da história, a do outro, e a que de fato aconteceu. Fato é que o jovem ouvinte pensou, depois de descer do ônibus, que havia aprendido uma lição naquele dia. Ouvir a conversa dos outros pode ser entediante, em algumas vezes. Noutras, pode ser apenas inútil.

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Distante das Linhas de Nazca 0 968

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho