Nem sempre é a mesma coisa 1 519

postado por Rafaé

E foi daí que eu não pude tomar café. Andei uns 40 metros a mais, até achar o corredor certo. Sou péssimo pra me achar em super mercados. Memorizar a localização dos produtos então, credo. Assim que achei a prateleira certa, o alívio – breve. Logo ouvi um grito que não entendi até agora. Talvez tenha sido um “Au!” assim, sem motivos e nem razões maiores pra existir. Enfim um segundo urro, que ressoou por todas as prateleiras, inclusive a do café embalado a vácuo, que eu já tinha em mãos. A ordem era clara: “Todo mundo no chão, é um assalto!”.

Por ser a primeira vez, fiquei inseguro. Não sabia onde colocar o pacote de café. Na dúvida, deitei com ele. E fiquei ali, sem saber se estava tranquilo, ou em estado de choque – bloqueado. A única certeza é a do aroma daquele assalto: café. Ali, de baixo para cima, havia umas treze marcas diferentes pra café, dispostas de acordo com algum critério que desconheço.

Foram cinco minutos. Vi pouca coisa, beirando o nada. Apenas ouvia: “Cadê a carteira?”, “Agora o relógio”, “O dinheiro do caixa, põe na sacola!”. Uma constantemente repetida era: “Calma, ninguém vai se machucar”. Sei.

Enfim o silêncio. Ninguém queria ser o primeiro a levantar. Mas aos poucos até eu estava lá, com meu café tipo exportação. Os caixas não funcionavam, por motivos óbvios. Não pude finalizar meu único objetivo ali naquele lugar. Com uma certa desilusão, deixei o produto (que já era um pouco de mim) ali, junto a chocolates e revistas. Por isso vim embora, espremi uns limões e aqui estou, já com sono.

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Distante das Linhas de Nazca 0 967

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 782

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski