“Minha vida por uma confissão à sua boca” 0 465

postado por Rafaé

Sempre foi impulsivo. E por isso, sempre achava uma brecha na razão pra agir da maneira que lhe apetecesse. Aquela moto era muito mais que um objeto. Era o símbolo de sua vontade. Era com ela que  iria até seus objetivos. E capacete, pra ele, era como camisinha (reduzia o contato com o prazer). Intensidade era o seu maior objetivo.

Foi assim, levando seu objetivo ao pé da letra, que E.A.V. abandonou sua noite previamente planejada para se jogar atrás de sua maior vontade (boa ou não, era intensa). Por ser um desafio tão sincero, não exitou. Montou em sua moto, deixando o capacete junto ao ambiente que o deixava deprimido, e pôs-se a correr pela rodovia.

Sua necessidade era clara, assim como a certeza de não dever fazer o que estava em andamento. Ainda assim, continuava, pois não tinha mais pra onde voltar. A estrada escura o confortava, e a leve chuva camuflava suas lágrimas, que insistiam em abandoná-lo. O que tinha a confessar era indizível aos ouvidos.

Mas após uma sequência de curvas, o alívio. O único fato que poderia o evitar de finalizar o impulso que o consumiria. Se ele percebeu o que aconteceu, não sei. Provavelmente sim. A verdade é que, como já havia previsto, a ansiedade o fez perder a cabeça. Por isso, em seu leito de morte, E.A.V. foi acomodado com seu capacete.

Como tivesse encontrado sua razão…

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Distante das Linhas de Nazca 0 1052

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 879

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski