Primeiro o 2, Depois o 4, Daí o 1, o 3, e Finalmente o 5 0 407

postado por Marcola

(É um cara que vai pra cadeia depois de um assalto obviamente mal sucedido empreendido contra uma joalheria. Que se fosse bem sucedido, ele não ia preso.)

E sobre essas coisas como moral da história, motivações legítimas para escrever, respeito pela inteligência da leitora… Todas são idiotices inventadas por algum profissional das palavras, querida. Sou um amador, e por isso me dou o direito de ser babaca gratuitamente. E lanço o desafio. Não que eu queira mesmo te testar ou desafiar. Quem nunca quis ser obscuro ao se expressar, que atire a primeira pedra. Ou que viva um pouco mais intensamente, que a oportunidade vai vir. Você já foi obscura, Alice, se você lembra de tudo tanto quanto eu lembro. Termino esse parágrafo e sem motivo algum começo o próximo, que não é na ordem lógica o próximo, mas na ordem que eu quis dar é sim. 2 – 4 – 1 – 3, e por fim o 5. Eu quero fazer assim. Na sua resposta você faz como preferir, se você me responder um dia. Se eu não estiver mandando a carta para um endereço que você já abandonou há meses por não conseguir arcar com as despesas do lar, como aconteceu em outras ocasiões. E se você quiser responder, claro, no caso de o endereço ser o correto. Você devia arranjar empregos mais rentáveis, Alice, se me for permitido o comentário. Se não for, não foi, mas eu o fiz da mesma maneira, como você sabe que eu faria. Porque é isso que eu faço melhor. (1)

Cheguei aqui há pouco e cumpri minha promessa. Não tenho nada a dizer, e se você tiver tempo ocioso o bastante pra ler o texto inteiro, isso é um sinal do Bom Senhor, com certeza. Não vou pedir desculpas por te roubar um minuto ou dois de atenção. Aliás, já te roubei a atenção outras vezes, de formas igualmente desrespeitosas, Alice querida. No dia do assalto à joalheria, por exemplo. E você roubou-me tempo algumas vezes também, mas esse eu nunca vou te cobrar, porque eu te amo demais pra me preocupar com coisas pequenas como essa de tempo roubado, investido, perdido, usado da melhor maneira que existe. Da única maneira que eu gosto. (2)

Você sabe que eu nunca me ative a bobagens como querer ter “o verdadeiro conhecimento dos fatos” para vomitar minhas opiniões sobre as coisas, e não é agora que vou começar a fazê-lo. Não vejo graça na idéia de ir a fundo em questões com as quais me preocupo pouco. E não é nem só uma questão de não ver graça. Acaba sendo mais uma questão de meramente desprezar o que acho que não vá me levar a lugar algum. Tenho ainda o hábito pueril de acreditar que estou indo para algum lugar, enquanto indivíduo, ou que estamos indo para algum lugar, enquanto casal. Tola criança. Confesso minha inocência, sabendo-me culpado no entanto. Disse você, como se imitasse o Juiz de Direito: “Culpado”. Enfim, o caso é que, sobre o que gosto, sei o bastante. Nunca bastante, mas o suficiente pra que eu possa me iludir sobre saber algo sobre alguma coisa. Nesses dias sombrios de cárcere é bastante necessário. Entende como? Pela manutenção da sanidade?! (3)

É nessa onda de ilusão que eu vou surfando desde que entrei aqui. Entorpecido pelo éter da mentira e da interpretação questionável.  Com a minha prancha longboard composta de prepotência, marrentice, falta de respeito, de educação e de bom senso, vou sobrevivendo. Gosto da auto destruição, e recentemente descobri que gosto da auto reconstrução também. Pouco preocupado fico com isso. Mas devia estar muito preocupado, eu sei Alice. Que quando eu ando nos corredores, as paredes me encaram e os outros presos também. (4)

Bem, e quanto à baixa qualidade das metáforas que uso, não peço desculpas. Culpada é você que gasta tempo com elas. Estamos juntos nessa, meu amor. Pelo menos nisso. Não tente se livrar do fardo de sua culpa, que aqui não há perdão. Não nesse labirinto idiota. Nessas horas que não passam. Nessa dor que me amassa o peito. Nessas imagens gastas por poetas mais e menos nobres que eu. Horas que não passam, dores que amassam o peito, labirintos, enfim. É o relógio quebrado, um enfarto, um Minotauro? O que é isso tudo, Alice? Responda-me com o coração. Porque eu perguntei com o coração.(5)

e a citação do dia é:

“…eu duvido que tava legal, porque só é legal quando eu tô lá, que quando eu não tô não tem como eu saber se tava mesmo legal…”

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Distante das Linhas de Nazca 0 967

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 782

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski