Tiroteio 0 370

Postado por Marco Antonio

Fodam-se todos eles. Agora, no fogo cruzado, todo mundo sumiu. Não faria tanta diferença, de qualquer forma. Pelo menos eu penso que não, que éramos em só 3 no começo. Todo mundo sempre some no fim. Pelo menos é mais confortável tentar ver a coisa desse jeito. São 10 pessoas lá, e eu aqui sozinho, com a munição acabando. Eu vou morrer. Em breve.

Que seja um massacre triunfal, ao menos. Não me rendo ao inimigo, por orgulho. Que não faz diferença nesta hora (eu sei). Mas o que sei eu sobre a hora das coisas? Entregarei-me às balas como Michael Phelps se entrega à piscina. Ou como o cobrador se entrega ao seu posto de trabalho, no ônibus. Como a amada se entrega ao amante nos romances da imaginação de escritores competentes no ato de mentir. Ou como qualquer pessoa se entrega de coração a algo, qualquer que seja. Com uma displicência forjada para evitar que alguém saiba o quanto se quer aquilo, ou aquilo outro. Bom, pensando bem, num momento de lucidez em meio a esta loucura, passo a acreditar que o esforço para encontrar metáforas ruins é de todo inútil. Nem mais graça ou risada encontro em tal intento. Michael Phelps, cobradores de ônibus, amantes. Fodam-se todos eles também. Continuo procurando. Rindo da desgraça, que se eu me concentrar nela através do viés que me ocorre primeiramente, o da desesperança que chamo de realismo, o fim vai ser menos confortável. E já vai doer bastante, independente da minha vontade.

Tomara que me acertem na cabeça antes, então. Daí eu não sinto nada. Ou sinto pouco. Um brinde ao meu sangue, que em breve vai regar o chão.

Ninguém merece beijos.

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Distante das Linhas de Nazca 0 963

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 776

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski