Boataria & Interpretação 2 513

Postado por Marco Antonio (agora surpreendentemente usuário do twitter!)

O que se dizia sobre o rapaz é que ele não tomava banho e que nunca arrumava a casa.

O que acontecia era que ele chegava sempre muito cansado do trabalho e que era solteiro. A vida pode parecer um grande chiqueiro para quem não tem ninguém ao lado para cobrar as coisas, mesmo que seja higiene pessoal. Era solteiro e desinteressado em deixar de ser, sabe como? Ainda que fosse bastante bonito e divertido, na minha opinião. Um desperdício, para um poço de virilidade daqueles.

Diziam também que mantinha o hábito de limpar os pés nos tapetes dos vizinhos de porta, para não sujar o próprio tapete depois dos dias de trabalho. O cara era pedreiro. E de acordo com o dia, se sujava um tanto mais, um tanto menos. As evidências eram as marcas no chão e nos tapetes. Morar em prédio pode ter desvantagens. Especialmente se você tenta delegar a outros a função de limpar a sujeira dos seus pés. Multas e advertências eram uma constante, até onde lembro. Mas não lembro de tudo, que eu morava no prédio em frente e sabia pouco da vida dos meus vizinhos.

Havia também a lenda sobre suas roupas estarem sempre fétidas e manchadas de suor ou tinta.

E falavam também que ele cantava todas as mulheres que lhe passassem pela frente, desde que parecessem minimamente saudáveis. Mas quanto a isso, nunca ouvi controvérsias. Ele era pedreiro, afinal, e me cantou algumas vezes.

Eu tento rever alguns estigmas que se fazem sobre profissionais de uma ou outra área, mas há alguns sobre os quais não digo nada. Estigmas são errados, geralmente. Mas há sempre as exceções. Passo em qualquer obra, e há sempre algum pedreiro que ao invés de trabalhar corretamente, arranja tempo e disposição para me lançar cantadas funestas. Quando não desrespeitosas. Tento entender seus motivos, mas ainda não consegui.

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Distante das Linhas de Nazca 0 1052

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 879

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski