Sobre o uso da prolixidade como mecanismo de defesa. 5 96

postado por Muriloco

Numa manhã comum de quarta-feira, um professor, querendo que seus alunos participassem da aula, perguntou a um aluno sobre a matéria do dia. O aluno não havia lido o texto e não estava entendendo nada daquela aula, mas, por sorte, sabia usar bem as palavras. Foi assim:

– E você, Joãozinho, o que acha sobre a questão da pragmática abordada pelo texto?

– Veja bem, professor, e digo veja bem não querendo dizer, obviamente, que você até agora tem tido uma visão incorreta da situação e do contexto que, nesse momento, estamos aqui discutindo, muito pelo contrário, mas enfim, retomando a questão colocada por você e, é claro, já previamente apresentada pelo texto de que estamos tratando, e isso, aliás, faz todo o sentido, pois seria tanto quanto ilógico e até mesmo estranho caso eventualmente acontecesse de você me perguntar sobre uma tese como essa, já discutida nas academias do mundo lá fora, e também, é claro, aqui dentro, como podemos ver nesse exato momento, se ela não houvesse sido previamente oferecida aos discentes aqui presentes na forma escrita, gráfica e impressa, quero dizer, sabe bem do que estou falando, trata-se da tinta sobre o papel.

– Uhum…  interessante… mas acho que não consegui entender o seu ponto.

– Caro professor, você como um antigo estudioso das questões aqui discutidas, e longe de mim querer de alguma forma rotulá-lo ou classificá-lo como um ser humano velho, que essa palavra não está nem mesmo nos manuais do que se convencionou chamar, nos dias de hoje, de politicamente correto, mas eu tampouco usaria expressões mais sutis como pessoa de idade ou idoso, porque não vejo aqui um exemplo vivo, obviamente, pois o senhor está visivelmente em plena saúde e juventude, por isso chamei-o de antigo estudioso apenas para querer dizer que você estuda há vários anos, eu suponho, as teses que, e agora retomo o que eu antes queria dizer, não são simples ou simplistas para se dizer em poucas palavras, muito pelo contrário, os conceitos carregam em si uma complexidade característica, e isso torna perfeitamente compreensível o fato, que agora ocorreu, de o senhor não conseguir entender meu ponto. Aliás, como todos podem ver, essa questão pontual é também um ponto, perdoe-me a redundância que, mais do que um pleonasmo, chegou a soar, isso é claro depende da concepção da pessoa que ouviu, como um infame trocadilho, pelo qual mais uma vez peço desculpas, pois não é do meu feitio fazer trocadilhos e esse não foi intencional, mas o que ia dizer é que essa questão pontual pode ilustrar bem essa circunstância.

– Bem… a que circunstância você se refere?

– Ora professor, não é óbvio? À pragmática!

– Ah sim, é claro. Está certo. Mas você conseguiria, por acaso, exemplificar esse seu entendimento do texto, para que possamos visualizá-lo?

– Eu poderia tentar, professor, mas como eu acabei de expor, esmiuçar tal questão a ponto de visualizá-la claramente, me refiro a um estado em que não houvesse dúvidas pairando em nossas cabeças como agora há, apesar de que, afinal, o que é a ciência senão a constante indagação sobre algo? Logo, o que quero dizer é que fazer isso que o senhor me pediu pode, possivelmente, não ser tarefa tão simples ou fácil, ainda mais porque, veja bem, a questão pontual tem um aspecto não raramente permeado pela subjetividade do sujeito e, é claro, pelo contexto a que estamos nos referindo, e isso dá margens a inúmeras interpretações e entendimentos da realidade. Isso vai além do que podemos ver, vai além do que podemos ouvir, vai além do que podemos tatear e, para que não fiquem de fora os outros sentidos, afinal eles não são menos importantes, talvez sejam hoje em dia, mas antigamente tiveram grande relevância no que toca a sobrevivência do homem, enfim, também vai além do degustar e do cheirar. E isso tudo, professor, e obviamente muito mais do que aqui eu pude exprimir em minhas limitadas palavras, é a pragmática. Fui claro?

– Perfeitamente…

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5 Comments

  1. Logo após o fato citado, cujo eu não estava presente, mas posso, com meu não muito tempo de convivência, mas já suficiente para tal, imaginar o referido professor dando dois passos à frente; um atrás; e mais um à frente. Pareceria um modesto ensaio de danças típicas da metade século passado, lembranças da juventude do mestre, não fossem as mãos reunidas na altura do peito, como quem vai proferir uma prece, mas não nos enganemos: ele faz isso só pra me enchendo o saco. Só isso.

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Dai-me Amor 0 174

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 318

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.