Sobre o uso da prolixidade como mecanismo de defesa. 5 647

postado por Muriloco

Numa manhã comum de quarta-feira, um professor, querendo que seus alunos participassem da aula, perguntou a um aluno sobre a matéria do dia. O aluno não havia lido o texto e não estava entendendo nada daquela aula, mas, por sorte, sabia usar bem as palavras. Foi assim:

– E você, Joãozinho, o que acha sobre a questão da pragmática abordada pelo texto?

– Veja bem, professor, e digo veja bem não querendo dizer, obviamente, que você até agora tem tido uma visão incorreta da situação e do contexto que, nesse momento, estamos aqui discutindo, muito pelo contrário, mas enfim, retomando a questão colocada por você e, é claro, já previamente apresentada pelo texto de que estamos tratando, e isso, aliás, faz todo o sentido, pois seria tanto quanto ilógico e até mesmo estranho caso eventualmente acontecesse de você me perguntar sobre uma tese como essa, já discutida nas academias do mundo lá fora, e também, é claro, aqui dentro, como podemos ver nesse exato momento, se ela não houvesse sido previamente oferecida aos discentes aqui presentes na forma escrita, gráfica e impressa, quero dizer, sabe bem do que estou falando, trata-se da tinta sobre o papel.

– Uhum…  interessante… mas acho que não consegui entender o seu ponto.

– Caro professor, você como um antigo estudioso das questões aqui discutidas, e longe de mim querer de alguma forma rotulá-lo ou classificá-lo como um ser humano velho, que essa palavra não está nem mesmo nos manuais do que se convencionou chamar, nos dias de hoje, de politicamente correto, mas eu tampouco usaria expressões mais sutis como pessoa de idade ou idoso, porque não vejo aqui um exemplo vivo, obviamente, pois o senhor está visivelmente em plena saúde e juventude, por isso chamei-o de antigo estudioso apenas para querer dizer que você estuda há vários anos, eu suponho, as teses que, e agora retomo o que eu antes queria dizer, não são simples ou simplistas para se dizer em poucas palavras, muito pelo contrário, os conceitos carregam em si uma complexidade característica, e isso torna perfeitamente compreensível o fato, que agora ocorreu, de o senhor não conseguir entender meu ponto. Aliás, como todos podem ver, essa questão pontual é também um ponto, perdoe-me a redundância que, mais do que um pleonasmo, chegou a soar, isso é claro depende da concepção da pessoa que ouviu, como um infame trocadilho, pelo qual mais uma vez peço desculpas, pois não é do meu feitio fazer trocadilhos e esse não foi intencional, mas o que ia dizer é que essa questão pontual pode ilustrar bem essa circunstância.

– Bem… a que circunstância você se refere?

– Ora professor, não é óbvio? À pragmática!

– Ah sim, é claro. Está certo. Mas você conseguiria, por acaso, exemplificar esse seu entendimento do texto, para que possamos visualizá-lo?

– Eu poderia tentar, professor, mas como eu acabei de expor, esmiuçar tal questão a ponto de visualizá-la claramente, me refiro a um estado em que não houvesse dúvidas pairando em nossas cabeças como agora há, apesar de que, afinal, o que é a ciência senão a constante indagação sobre algo? Logo, o que quero dizer é que fazer isso que o senhor me pediu pode, possivelmente, não ser tarefa tão simples ou fácil, ainda mais porque, veja bem, a questão pontual tem um aspecto não raramente permeado pela subjetividade do sujeito e, é claro, pelo contexto a que estamos nos referindo, e isso dá margens a inúmeras interpretações e entendimentos da realidade. Isso vai além do que podemos ver, vai além do que podemos ouvir, vai além do que podemos tatear e, para que não fiquem de fora os outros sentidos, afinal eles não são menos importantes, talvez sejam hoje em dia, mas antigamente tiveram grande relevância no que toca a sobrevivência do homem, enfim, também vai além do degustar e do cheirar. E isso tudo, professor, e obviamente muito mais do que aqui eu pude exprimir em minhas limitadas palavras, é a pragmática. Fui claro?

– Perfeitamente…

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5 Comments

  1. E o Murilense, Salomonster apavorando os irmão a cada dia mais!

    SALOMESTRE
    SALOMIÚDO
    SALOMÉDICO

    E POR AÍ VAI!

  2. Logo após o fato citado, cujo eu não estava presente, mas posso, com meu não muito tempo de convivência, mas já suficiente para tal, imaginar o referido professor dando dois passos à frente; um atrás; e mais um à frente. Pareceria um modesto ensaio de danças típicas da metade século passado, lembranças da juventude do mestre, não fossem as mãos reunidas na altura do peito, como quem vai proferir uma prece, mas não nos enganemos: ele faz isso só pra me enchendo o saco. Só isso.

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Escala de Baumé 0 1920

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3211

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai