Verdades que ficam fora do Twitter – diariamente 2 514

postado por Rafaé.

17:55. Ao olhar para o relógio, a euforia em diagnosticar o fim eminente do expediente. Como consequência dessa observação, a certeza de que passou mais um dia matando tempo na frente do computador, fechando as janelas de pornografia quando os demais se aproximavam de sua mesa de “trabalho”. Se bem que ali, a maior parte de sua dedicação era destinada a peidos e masturbações disfarçadas, por baixo da mesa. Uma última conferida nas atualizações pornográficas dos sites que acompanhava e pronto: 18:00.

“Boa noite, pessoal, até amanhã”. Sempre saia com aquela cara de trabalhador eficaz, daqueles que fazem as melhores coisas sem o menor esforço. Nunca soube o que os demais achavam do desempenho profissional dele, mas a postura sempre impecável e superior com certeza enganou alguns.

18:20. A cena se repete. O mesmo bar, com os mesmos frequentadores. As mesmas piadas, com as mesmas reprovações. “Uma gelada e um amargo pra começar”. E tudo começava. Euforia, risadas e companheirismos ali, eram tão falsos quanto os uísques que o bar apresentava em suas prateleiras. Mas essa realidade completa a vida de muitos, por horas a fio. Enfim, 23:18.

A tristeza começa a avançar em seu interior, por sentir que em breve o bar fechará, e o dono o “despejará” na realidade, onde daquela alegria toda, restará dor de cabeça e boca seca na manhã seguinte. As piadas já perderam a graça antes mesmo do final. O truco já não é gritado a plenos pulmões.

23:45. O bar fecha, o vento frio e a garoa fina o acompanham até sua casa, onde o lixo está azedo e a louça está há tanto tempo esperando para ser lavada que nem mesmo as baratas a contemplam. Por opção, não acende a luz. As dimensões da solidão são menores no escuro. Foi sempre assim, adaptando o ambiente de maneira a tornar a realidade menos frustrante. Como o hábito de chorar no banho, onde tudo é água e espuma. 00:32.

Sua cama está macia e limpa da mesma maneira de todos os dias (muito pouco). Seus últimos pensamentos giram em torno da realidade, de onde ele consegue fugir com um mínimo de esforço.

00:43. O sono já domina a realidade, aguardando o próximo ciclo, que se repetirá impecavelmente no dia seguinte, com o devido capricho de quem acredita viver dias distintos.

Enfim, que horas são?

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Distante das Linhas de Nazca 0 963

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 776

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski