Contínuo, constante e redundantemente cíclico 0 513

postado por Rafaé.

Tibeŕio nunca foi reconhecido por possuir bom gosto, garbo ou elegância. Nunca. Principalmente entre os cotidianos mais próximos (cinco). Cinco. Era exatamente este o número de pessoas ao redor do mundo que trocavam algumas palavras com essa figura tão desinteressante. Ao redor do mundo, utilizada aqui pra frisar que eram só eles mesmo, pois moravam todos na empoeirada rua Harry Haller – a mesma que Tibério. Seja por Orkut, Facebook, Twitter, qualquer realidade – virtual ou não – ninguém mais se relacionava com Tibério.

Conhecendo há pouco ou há muito tempo, é difícil tentar ressaltar alguma qualidade em um ser que vive, aos 37 anos, com a mesada da avó. Tibério é do tipo que filma acidentes de carro com a câmera do celular, seu currículo é escrito em Comic Sans, além de fazer mal: amor e macarrão – mesmo os mais básicos. Mas joga com alguma sorte.

A única fonte de autoestima para ele é o bar. Não pela cachaça, que o envelhecera mais do que o tempo conseguiria, mas pelos trocados que ganha em apostas, sejam elas na canastra, truco ou sinuca. Ultimamente Tibério anda calado e cabisbaixo – além do comum. Mas ninguém percebe, nem mesmo seus cinco amigos. Talvez pela pouca expressividade de Tibério e seus avatares.

Na verdade, Tibério continua o mesmo. Eu é que tentei achar algo interessante nele, nesses últimos dias. Coitado.

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Distante das Linhas de Nazca 0 968

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 782

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski