A velha tática de usar 3ª pessoa como máscara 0 1013

postado por Rafaé

Mariana era do tipo leve. Não que sua silhueta se assemelhasse à de um manequim. Mas sua ternura contagiava a todos que a conheciam de verdade. Pois à primeira vista, sua distração era constantemente confundida com esnobismo.

Várias vezes a ouvi dizer que se sentia como o ar contido em uma bolha de sabão. Preso, mas leve, voando. Sem medo do momento do estouro. Pois sabia, não haveria queda. Apenas seria absorvida pelo todo.

Nunca a vi apressada. Mariana era dona de todo o tempo do mundo. Passava dias vivendo intensamente-poucas-coisas. O que de certa forma me afligia. Sabe aquele pensamento de “o tempo tá passando e eu não tô fazendo nada”? Mas a ternura com que Mariana se entregava, parecia cúmplice desse rolar do tempo. Se é que o tempo rola, ou passa.

Há cerca de 30 anos não a vejo. O tempo, pra mim, passou. Não sei se bem ou mal. Mas percebo o quanto questionei momentos que vivi, sem me entregar sinceramente. Talvez nunca tenha entrado em uma bolha de sabão. No máximo, fui aquela espuma que, ao chegar na ponta do canudo cai em queda livre, pra secar no chão.

Tenho saudades de admirar Mariana, que nunca soube da minha admiração. Sempre cultivei amores platônicos. E todos foram com ela. A amei de várias maneiras. Espero que a bolha de Mariana não tenha estourado…

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Distante das Linhas de Nazca 0 965

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 780

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski