Sim, a vida de Ronaldo já foi pequena 0 408

postado por Rafaé

O domínio de simbologias nunca foi o forte de Ronaldo, mas ainda assim vivia atribuindo valores e sentidos para objetos e pessoas aleatórias.  Não que ele procurasse isso, mas às vezes a realidade objetivada não compreendia momentos simples de seu cotidiano.

Tamarindos, maçãs e carambolas representavam diversos momentos de sua vida. Não havia uma fase sequer que não possuísse seu símbolo. Chegou, certa vez, a criar um pônei dentro de sua vida amorosa – ainda pequena. Deu certo por um tempo.

Vinhos abertos na rua, com pé de cama, pilhas recarregáveis ou um simples batom. Tudo isso dava um motivo a mais para justificar os momentos ébrios mais sinceros de sua vida. Até mesmo os vinhos escondidos dentro da mochila, quando iam jantar na Maçã verde. Estes apreciados com taças emprestadas.

Experiências gastronômicas mal sucedidas nunca o decepcionaram, pois até os indigestos chinchulines renderam belas fotos e recordações prazerosas. Não, a fome ele não matou. Mas enfim, ninguém vive só de alimentação hoje em dia, não é?

Entre pôneis e peixes no açude, Ronaldo constituia sua família imaginária – ainda pequena. Deliciava-se em ver os peixes comendo ração à flor da água, acompanhado daquela tranquilidade – ainda pequena. Sim, também tinha os mosquitos. Mas isso não simbolizava nada.

Um dia tentou plantar um pinheiro, uma Araucária na verdade – ainda pequena –, que não vingou. Mas aquele lugar ainda existe dentro de seus sentimentos, talvez sem significado relevante.

Olhando sua bicicleta, Ronaldo chora-sorrindo. Sorrindo por lembrar das vezes em que ela o levou à felicidade do prazer. Chora por não poder cumprir a promessa que fez a ela, a bike – ainda pequena –, de levá-la passear na serra.

Mas, por uma ironia oculta do simbolismo Ronaldiano, o símbolo mais triste de seu acervo é uma fruta. Quem diria? Uma simples ameixa preta por fora e vermelho-amarelada por dentro, o causa náuseas de decepção. A fruta que antes era o carinho pela vida (ainda pequena) perdeu seu sentido antes mesmo da digestão. Tendo um fim previsto: a merda. Já não mais pequena.

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Distante das Linhas de Nazca 0 1013

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 836

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski