“Beijo na boca me dá tesão” – parte derradeira 12 2354

Colombo: sensual, ou irônico?

postado pela redação

Demorou, mas saiu. Após um conturbado mês de agosto, setembro surge anunciando tempos melhores. Gabriel Colombo reaparece, mostrando que pode ser considerado um símbolo brasileiro de que o homem médio não está preparado pra encarar a vanguarda de frente.

Com um estilo intrigante, Colombo expande seus tentáculos, que vão de Clarice Lispector a Bruna Surfistinha. Sempre misturando literatura, prazer e provocação.

Ao que parece, a língua portuguesa já não basta para compor tamanha subjetividade do trabalho do novo poeta. E, assim como você, intrigado com o Gabriel, não sabemos até que ponto nos divertimos com ele, ou ele se diverte com nossas reações.

Mais uma vez, dediquem-se a desvendar este poeta de personalidade multifacetada, como todo bom pós-moderno.

1 – Qual foi a pessoa mais linda que viu em sua vida?
As belezas tendem a se deteriorar com o passar dos tempos. A pessoa mais linda que vi foi minha mãe: foi e é uma mulher extraordinária, em todos os sentidos!

2 – O que você pensa de si próprio?
Ah, se o meu espelho falasse! Ele poderia responder essa pergunta
muito bem! Penso que, seguindo a máxima de Nietzsche: ”torna-te quem tu és”, estou mais fiel a mim, me traindo cada vez menos. No mais, os outros dizem muito de nós.

3 – Qual é o seu objetivo na vida?
Meu objetivo? Parar de lambuzar a cueca e parar de parcelar em 5x no cartão… entendam como quiserem…

4 – De onde surgiu a ideia de fazer videopoesias?
Da vontade de que as pessoas sintam , através de sons e imagens, o
clima e a intensidade do que quero que todo mundo escute. Eu estava
incomodando muito os outros à minha volta, lendo o que eu escrevia, em
voz alta. Daí no YouTube, e na Galeria Multimídia do meu site, tem o
botão de ‘encerrar”. hehhehehe

5 – Como você vê a recepção do público para os seus trabalhos?

Como disse Clarice Lispector: “vai quem quer”. É uma obra fechada e não posso obrigar ninguém. Tinha uma guria que deveria fazer uma impressão trocada de mim, e quando leu meu livro, disse: “Nossa, Gabriel! Que leve!“. No mais, o brasileiro ainda consome pouca literatura, não entende muito do que pode ser uma poesia. É uma maioria, sempre teleguiada pelo ranking dos dez mais vendidos da revista Veja.

6 – O que mais influencia a produção dos seus vídeos?
A certeza que quero dizer aquilo. A certeza que meus pais não vão me
tirar a herança e o limite do possível. Nem tudo o que queremos é
possível de se filmar ou se falar.

7 – De quem mais escuta conselhos sobre sua obra?
De duas pessoas: do anjo que vive no meu ombro direito e o diabo, que
óbvio, habita o ombro esquerdo.

8 – Quais são os livros da sua vida?
Aqui vão três:
Assim Falou Zaratustra -Nietzsche
Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres -Clarice Lispector
Essa Loucura Roubada à Mão Armada que não Desejo a Ninguém a não ser a Mim Mesmo Amém -Bukowski

9 – Que escritor admira profundamente, e como lhe influencia?
Acho o Marcelo Mirisola muito bom. Consegue mandar todo mundo à
merda. Claro que deve pagar um preço: o de todo mundo odiá-lo.

10 – Como você vê o sexo na literatura?
Ainda estou para encontrar um livro que conte poucas e boas. Henry
Miller promete muito, mas não deixa ninguém de pau duro.

11 – E a Bruna Surfistinha. Ainda tem vontade de entrar na cabeça dela?

(Hum…vocês do blog estão apimentando, hein?!) Gostaria de entrar
não só na cabeça da Surfistinha! Mas tenho medo de doença…

12 – O que esperar dos próximos 10 anos para o seu livro? E o da Surfistinha?

Aviso: nunca esperem grandes estouros porque a vida boa é feita de
coisas prosaicas, com uma extravagância aqui e outra acolá. Mas me
esperem em inglês também… está na pauta um livro no idioma universal.
Para a Surfistinha, a lei da gravidade se encarrega… vocês sabem que a
tendência é cada vez mais “descer pra baixo”.

13 – Os seus textos mais ácidos são digitados com um só dedo?

Como vocês sabem disso??

Não tem como não identificar o estilo!

Pra você jovem, que não brindou a primeira parte da entrevista, deleite-se aqui.

E aí, desvendou?


O livro “Verde Cor de Menta e dos teus olhos”, de Gabriel Colombo, está
disponível nas melhores livrarias do país, bem como no site do escritor.
www.gabrielcolombo.com.br
P.s:o texto do nosso conhecido vídeo “French Kiss”, está no livro , onde foi primeiramente publicado.

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12 Comments

  1. é, jovens, esse é um post para ler e reler. o que mais me instigou foi o fator beleza acaba e o que sobra é a obra. Gabriel Colombo deixando sua marca na história. e nós, o que estamos fazendo? pra se pensar…

  2. estou extasiado!

    (e digitei com um só dedo, em homenagem ao poeta)

    *tive que usar dois para o asterisco, parênteses e exclamações!

  3. Com VANGUARDAS ninguém aprende a lidar. Apenas rejeita-se ou aceita-se. Os tolos ficam pela história, enquanto os grandes escrevem o nome no livro do futuro.

  4. Cacete de Agulha ,,, porra, o meu objetivo de vida, que até então não existia, agora é “parar de lambuzar a cueca e parar de parcelar em 5x no cartão” … Sério!!

  5. Caros blogueiros do Obscenidade Digital,
    Como eu já havia comentado com o Marco, fica a minha sugestão para dar sequência à lista de entrevista com personalidades atemporais de nosso continente: um bate papo com nossa querida Narcisa Tamborindeguy. AI QUE ABSURDO.
    Um forte abraço.

  6. Estou, com o perdão da palavra, embasbacado. Meu momento preferido da entrevista (ou “bate papo”?) é a crítica ao hábito literário do povo tupiniquim. Sempre foi uma das minhas críticas ao país, e é regozijador saber que o Gabe compartilha dessa visão.

    No mais, parabéns a quem formulou as perguntas. Realmente, Gabriel, apimentaram a entrevista e despejaram um dendê todo baiano. forte ABS

    1. Regozijo-me de satisfação ao acompanhar o site. Parabéns aos apimentados blogueiros e ao Gabe, que é deveras um crítico e poeta muito sagaz.
      Abs, brous.

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Escala de Baumé 0 1919

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Impressões Sinestésicas de Um Entusiasta 0 2036

This Will Destroy You

Another Language | Cinderella 99

Há um sussurro quase inaudível, penetrando por debaixo da porta e passando pelas pequenas frestas na janela, carrega uma mensagem codificada de algum lugar distante, em um tom suavemente sedutor; estimula os olhos a enxergarem longe, principalmente se fechados. A esperança, natural aos novos fenômenos, abre um pequeno portal em minha frente: não enxergo nada além de sua profundidade, e, já é tarde demais para escolher não progredir através desse vórtice. A renúncia à paz, que se faz presente em toda nova empreitada ao desconhecido, sequestra-me e me lança em direção ao que nem sabia que procurava; decodifico o início da mensagem e a revelação é clara: estou prestes a descobrir um novo idioma.

 

Sou devolvido ao lugar onde comecei e não sou mais o mesmo, uma força que transmite uma paz inquieta mudou tudo de lugar, e, tanto os móveis quanto as sensações agora ocupam posições mais confortáveis. Tento me familiarizar com o novo momento, me aproximo de sentimentos que sempre me foram íntimos e os descubro restaurados, há uma nova vibração emanando em torno de mim, cada vez mais tátil; já não sei se a levo comigo ou se sou carregado por ela.

 

Viajo num mundo confortavelmente desabitado, me sinto pleno em minha solidão, contemplo o deserto em quase todo o horizonte; vejo apenas uma montanha, distante, que calmamente vem em minha direção. O chão vibra com ternura conforme o espaço entre nós diminui. Cordial, ela se abaixa para eu enxergar o que carrega em seu topo; atinjo seu ápice, e uma pequena interferência me leva para onde as nuvens nublam suavemente a visão. Viro para o outro lado, observo um abismo, que me contempla de volta. Desço como quem flutua, mas sei que o caminho reserva novas surpresas; sinto a pulsação do vento mudar, enchendo as nuvens de eletricidade enquanto algumas delas se acendem, gerando pequenas explosões que iluminam o caminho.

 

A luz que dá impressão de rarear muda de cor, assume uma dramaticidade rubra, com sombras demarcadas. Sou envolto em uma tensão que não transmite temor, necessária para a dissolução de antigos reinos. É parte da história que nos contam desde que nascemos, é objeto, mas nem por isso é obstáculo. Quando a tensão se dissolve, o chão volta a ser plano, a energia que passa a me envolver parece ter surgido de dentro para fora. Uma paz, que por mais curta que seja, traz a ideia do eterno. Para chegar mais longe, alguns passos tentam nos guiar até nossos ancestrais; somam-se a mim forças reunidas de outros tempos, calor de partículas que o cotidiano insiste em esfriar. A percepção de sua existência me convida para lugares onde se desmaterializa tudo que criei, me conforto em esquecer o que não preciso carregar.

 

Docemente, os sons começam a se esvair pelo quarto, e já não me preocupo mais em impedir que se escapem pelas frestas, volto para um lugar análogo de onde eu era, repleto de novas perspectivas. Me conforta a comprovação de que ainda vou me interessar por tanta coisa que desconheço. Trago a paz que as boas viagens nos reservam ao voltar para casa, com a convicção de que tudo é linguagem e nada é apenas ruído.

thiswilldestroyyou.bandcamp.com/album/another-language