Da úlcera que me trouxe até aqui 5 429

postado por Rafaé

As tão recorrentes e relatadas disputas de terras no interior brasileiro renderam uma gastrite nervosa ao ainda adolescente Natalino. A briga era entre os irmãos Gomes: seu pai Dário e seu tio Albino, e durava desde antes de Natalino descobrir a vida. As lembranças das brigas entre os dois irmãos sempre estiveram coladas às demais memórias de Natalino, desde criança.

Os dias passavam aos arredores de Ipatinga com uma rotina que o colocava já na rua quando os primeiros raios de sol acordavam os pássaros. Natalino ajudou o pai na lavoura desde os 11 anos, ao lado de seu irmão Murilo, na época com 13 anos. As marcas do cabo da enxada ainda se fazem visíveis nas palmas das mãos do simpático e careca Natalino, hoje com 59 anos.

Mas em meio a toda essa rotina de vida batalhadora, porém pacata, a tranquilidade era constantemente interrompida pela disputa entre os dois irmãos. Afinal de contas, onde a cerca deveria ficar? O tio reclamava cerca de cinco alqueires de terra, o que lhe daria direito a um córrego em sua propriedade, para construir o tão almejado açude. Nunca soube ao certo que era o dono da razão. Mas o fato é que todas aquelas discussões, presenciadas desde cedo, causaram em Natalino a gastrite, que só piorou com o tempo, tornando-se uma úlcera.

O auge dessa briga familiar toda, para Natalino foi o dia em que, cansado das humilhações e provocações que seu pai vinha recebendo, de que em breve pagaria com a vida pela teimosia com a cerca, Natalino pegou escondido a espingarda do pai e foi esperar o tio no caminho de casa. Chegou pouco após a hora do almoço, e por lá ficou até o anoitecer, sentado num pé de manga, o mais alto que conseguiu subir.  Aquela tocaia deveria colocar fim em todo aquele inferno. Sorte que ninguém passou por ali naquela tarde. É assim que lembra Natalino, com um olhar entre o perdido e o que acha graça de si mesmo.

Úlcera. Até hoje as lembranças das dores no estômago existem. Devido a elas, Natalino foi obrigado a sair da pequena Ipatinga em 1968, buscando tratamento em Curitiba. Sorridente, conta que lembra pouco da viagem, pois estava dopado com um chá que era receita de família.

Após quatro dias de viagem, Curitiba recebia Natalino e sua irmã Irma, para um tratamento de um mês, “num hospital que nem existe mais”. O mês acabou, junto o dinheiro, Irma voltou e o jovem Natalino resolveu ficar por aqui, lavando copos no restaurante próximo à pensão em que estava. O dinheiro não era muito, mas o suficiente pra manter um jovem com um estômago prestes a se recuperar completamente.

O ano era 1979. Natalino então com 28 anos firma sociedade com Juvenil de Andrade, o Bigode, e criam o bar que os sustenta até os dias de hoje. Após três mudanças de endereço, o hoje intitulado “Côndor – bar e lanches” está situado na rua Doutor Pedrosa, logo ali, na fronteira entre o Centro e o pomposo Batel.

É o dia inteiro lá, servindo muitas cervejas e poucas palavras, ainda assim sem perder a simpatia contida mineira. Da úlcera, só lembrança. Assim como as da Curitiba da década de 70, quando voltava a pé pra casa, atravessando o centro, a atual Vila Torres, sem nunca se preocupar com segurança. Todos na rua eram dignos de um ôpa! Sempre com as mãos nos bolsos. Até hoje o frio parece um desconhecido.

Dos dias de hoje, fala pouco. Apenas contempla a bagunça feita no bar, aos fins de noite, onde problema algum faz sentido aos seus visitantes. É o Eudes fazendo um churrasco no fundo, é o Zé Carlos reclamando os pontos roubados no truco, além da piazada que insiste em tratar engradado de cerveja como objetivo.

Cerveja? Pega ali na geladeira, trás aqui que eu abro. Porque aqui não tem garçom. Essa é a frase dita e repetida tantas vezes pelo Bigode, aos novatos. Natalino, se concorda, não o diz, apenas indica onde estão as garrafas…

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Distante das Linhas de Nazca 0 963

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 776

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski