Pra quem, um dia, venha a me dar uma bebida 11 550

postado por Rafaé, o pós.

Daquele tronco em que talhei os nossos nomes, restam algumas dúzias de cupins obesos. Se bem que há muito tempo o tronco não era o mesmo. A casca ficou grossa. Escureceu. Em nada lembrava o verde vivo que brotou naquele tempo, na ponta da mesma lâmina que abriu o vinho doce. Preferíamos vinho doce aquela época, lembra?

Na verdade, eu nunca gostei muito do doce, mas adorava tomar vinho com você. Aliás, eu também não gostava daquela praça, perto da biblioteca. A água verde do chafariz me deprimia, mas sempre gostei de estar à margem do fluxo tempo com você.

Ilusão. Hoje vemos que o tempo passou. Pra gente e pro tronco. Até os cupins parecem afetados com isso.

Noites atrás, voltei àquela praça. Desta vez sozinho, sem o tronco que estampou nossos nomes por alguns anos. O vinho? Era doce. Eu realmente não gosto. Mas algumas memórias despertaram nos primeiros goles. Logo enjoei.

Durante algum tempo ali, sentado no mesmo canto, percebi que o tempo passava. Sempre passou. A gente é que se iludia com o fato de termos nomes gravados em um tronco tão forte quanto aquele, que inesperadamente cedeu às forças mínimas de pequenos desconfortos internos.

Como uma última lembrança por ali, num último gole enjoativo de vinho doce, suas divagações sobre o tempo. Como era mesmo? “O tempo é um jogo e uma esperança de alcançar a eternidade.” Era isso? De quem era mesmo essa frase? Não sei.

Lembranças e vinho doce se misturam. A realidade e o tempo, agora, carecem de bebidas mais fortes…

Previous ArticleNext Article

11 Comments

  1. Tentei dar 10 estrelas a este post, mas infelizmente só consegui 5. De qualquer forma, gostaria de deixar registrado que recebeu meu selo de qualidade Batel Premium.

  2. “Que me perdoem se eu insisto neste tema, mas não sei fazer poema ou canção
    que fale de outra coisa que não seja o amor. Se o quadradismo dos meus versos vai de encontro aos intelectos que não usam o coração como expressão…”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Distante das Linhas de Nazca 0 965

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 780

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski