Derradeira 1 419

postado por Rafaé, aquele do baile…

Olhando aquela foto, ele me dizia o quanto havia sido feliz naqueles quarenta anos. Ou seria nos anos quarenta? Não sei. As pessoas têm mania de falar baixinho quando sentem o frio da morte dominar as pernas. Para poupá-lo da perda de tempo com repetições, não questionei.

Sem forças, não terminou nenhuma frase. Todas foram interrompidas por um profundo suspiro, daqueles que parecem preencher o corpo inteiro sem chegar onde deveria. Sempre com a cumplicidade da fotografia.

Eram lembranças desconexas. Mas ele parecia costurá-las com a imagem em suas mãos.

Não me dei o direito de interromper suas divagações. Permaneci ali, sentado no chão, ao lado da cama que o engolia.

Em silêncio me entregou a foto. Não foi bem surpresa o que senti. Muito menos compreendi aquele olhar que ele depositava ali. O que tive em minhas mãos foi o retrato em preto e branco de um bonde. Talvez o da rua XV. Não reconheci ninguém.

Tentei entender o que ele quase dizia e tinha a cumplicidade daquele bonde. Fiz isso por não-sei-quantos minutos. Talvez nem um. Mas foi o tempo suficiente para derramar uma lágrima, que durou alguns segundos a mais do que ele.

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Distante das Linhas de Nazca 0 968

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 783

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski