Outra festa. Uma vez mais simulamos a realidade em torno de ti 0 399

postado por Rafaé, o barão do amor.

Vendo vocês dois aí ao lado da fogueira, entre carinhos e sorrisos cúmplices, o que sinto chega a beirar um remorso. Mas logo compreendo que não devemos submeter nossas vontades às imposições morais.

Já me perguntei se a adoção deste discurso libertário é algo confortante, apenas para justificar minha nova forma de amar. Talvez esta ideia seja apenas uma resposta imediata à minha consciência. Quando ela teima em questionar minhas atitudes, tende a falar besteiras.

Já não sei, meu chão é outro.

Alegra-me a tua felicidade, agora iluminada inconstantemente pelas chamas que os aquece. Não que eu me importe com o que estás sentindo, mas tua inocente alegria me remete a outros tempos. À época do inquestionável controle dos meus prazeres e suas fontes. De quando eu virava as costas, sem me preocupar com possíveis e lastimáveis perdas – não existiam.

Olho e me vejo há uns três ou quatro anos. Quando vivia assim, sem desconfiar de que todos vivem uma outra realidade na minha ausência. Mas hoje, veja só, na tua ausência, sou eu quem ocupa este lugar em que estás. Sou eu quem segura a mão que te afaga. Quem beija a boca que te engana. Quem goza o corpo que te convence amada.

É claro que não sabes o quanto és feliz. Provavelmente nem sejas. Talvez eu também não tenha sido.

Temos o costume de fantasiar o passado, emoldurando nossas lembranças, como se tivéssemos vivido o melhor de nossa época. Por isso não me importo em melhorar o meu presente, pois sei que daqui alguns anos lembrarei com carinho dos dias de hoje.

Não vejo a necessidade de te abrir os olhos. Talvez seja necessária essa felicidade ingênua. Essa ilusão de que realmente somos privilegiadas, que este amor é mesmo o nosso todo. Provavelmente nunca saberás que este teu amor também é meu.

Caso descubras, espero que encontre estas palavras. Não para me justificar, ou diminuir a tua desilusão. Apenas para que saibas que temos mais cumplicidade, além do corpo que dividimos.

Eu sigo assim, ansiosa pelo meu prazer e, de certa forma, admirando nostálgica a tua ingênua felicidade.

E você, que agora segura as mãos que me darão o prazer desta noite, não te esqueças de que apenas nos decepcionamos com as promessas que aceitamos.

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Distante das Linhas de Nazca 0 963

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 776

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski