Amando como insetos 0 461

postado por Rafaé, você amanhã.

Beatriz nunca chegou a acordar de sonhos intranquilos. Muito menos sentiu alguma mudança ao se encontrar com Gregor Samsa. Mas a verdade é que, ao contrário dele, ela jamais se percebeu como um inseto. Talvez ninguém a tenha visto assim, levando em consideração o fato de que poucos se importavam com ela. Falo em poucos para não cometer uma injustiça, mas acho que nenhuma pessoa se importaria com as intimidades dela.

O fato é que Beatriz sempre foi um inseto quando o assunto era amor. Onde enxergava a possibilidade de um, lá ia ela. Atraída de maneira tão lúcida como uma mariposa por uma lâmpada acesa qualquer.  E lá ficava zanzando, batendo e descendo numa espiral na tentativa de evitar a queda livre. Recuperava suas forças e voltava ao seu amor.

Os amores de Beatriz são sempre os mesmos, independente de lâmpada ou poste. Sua relação é sempre igual, pois o calor que busca nestes amores, no fundo, é para suprir sua pouca destreza para lidar com o silêncio que a solidão a diz.

Com o tempo os problemas surgem. Sempre na lâmpada. Muito amarela, quente ou fria. Seus problemas estão sempre lá, projetados na luz a ser criticada.

Fato conhecido por todos e, graças à energia elétrica, temos lâmpadas acesas por todos os cantos nos dias de hoje. E logo Beatriz atravessa a rua para zanzar em volta do seu novo grande amor. Com o tempo ela percebe que esta nova lâmpada é amarela, e os sonhos intranquilos ganharão espaço sem que ela acorde.

Bengalas luminosas sempre existirão para Beatriz, que descerá em espiral enquanto puder evitar a solidão.

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Distante das Linhas de Nazca 0 1050

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 877

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski