Delírios de um daltônico 2 717

escrito por André Petrini

Semana passada, em uma noite quente como abraço de mãe, acordei sobressaltado por uma questão que me manteve acordado por horas: qual é a cor do infinito? A princípio o pensamento me encheu de culpa, por estar considerando banalidades enquanto sacolinhas plásticas, carregadas de más intenções, destruíam o meio ambiente na calada da noite. Mas que se danem as sacolinhas. Neste momento o que destrói o meu ambiente é a dúvida daquilo que nunca me perguntei. Qual é mesmo a cor do infinito?

Ainda sentado na cama, começo a notar um som de tambores que parece estar ali já há algum tempo, mas só agora me conquista a atenção. Ao passo que o som vai aumentando, consigo distinguir notas dos foles irlandeses, e agora os passos ordenados de várias pessoas em ritmo de marcha militarista, se aproximando cada vez mais da minha janela. Olho para o lado a procurar minha mulher, que não está em seu lugar. Nem poderia, já que estou em uma cama de solteiro. Mas tenho certeza que quando acordei, ela estava ali. A cama de casal, não a Marci… sinceramente não me lembro se Marcela ainda estava lá quando acordei.

Antes que eu pudesse ficar pensando sobre o paradeiro do outro lado da cama, as baterias, foles, gaitas e botas explodiram em versão Sapucaí, até que dois homens muito magros e ágeis entraram correndo em meu quarto, dançando ao passo da música, me pegaram pelos braços e me vestiram com uma roupa muito colorida. Aquilo estava ficando cada vez mais estranho. A roupa era muito mais colorida do que deveria ser e se estou correto, cada membro era representado por uma cor, mas a cada passo que eu dava as cores se embaralhavam, mudando de lugar. Percebi que a roupa dos dois homenzinhos também fazia isso, com a diferença que permaneciam em escalas de cinza, então se eu tinha o braço direito em amarelo e o esquerdo em vermelho, para eles um era 70% preto e outro 30% branco.

Os dois continuavam me puxando pelos braços, correndo por todos os cômodos da casa, dando 3 voltas no quarto, 2 na sala, 8 na cozinha – só agora percebo que eles talvez estivessem com fome -, 1 volta no banheiro, e mais 2 no quarto que agora tinha um berço de madeira no lugar da cama de solteiro. Eu já estava ficando tonto, mas queria muito ver o rosto do bebê que chorava naquele espaço apertado. Na primeira volta passamos perto, mas o móbile pendurado ao teto ficou bem na minha frente, e só consegui enxergar aquelas duas mãozinhas levantadas. Na segunda ficamos um pouco mais afastados, mas tive a nítida impressão de que o pequeno tinha uma câmera nas mãos, e posava para uma foto que ele mesmo batia e sim! Era sim uma câmera, porque logo depois teve um flash.

Quando a câmera abriu o obturador, houve um estrondo que fez a banda lá fora se calar. O flash inundou o ambiente com uma luz branca que cegava tanto, que meus olhos pareciam ter dado voltas ao redor do próprio eixo, e agora olhavam para dentro da minha cabeça. E o que eu via dentro da minha cabeça? Toda esta cena se passando em câmera muitíssimo lenta, mas ao invés de minha casa, estou em um infinito branco, onde todo o ambiente e todos os móveis são brancos. Na hora pensei que aquilo parecia o Mar de Leite do Saramago, em Ensaio Sobre a Cegueira, e instantaneamente todo o chão começou a desmoronar, me fazendo cair, indo em direção ao céu. Era como voar, mas eu estava caindo. Era como cair, mas eu estava indo para cima. Entende?

O que eu sei, é que tudo aquilo durou mais tempo que uma partida de futebol que vai para os pênaltis. Quando eu finalmente parei de cair, dei de cabeça com um navio, também branco, navegando pelo mar de leite sem fim. Embarquei com a ajuda de alguns passageiros – foram precisos muitos deles, porque todos tinham uma das mãos ocupadas segurando seus bilhetes-, até que subi, me sequei e instantaneamente um bilhete apareceu na minha mão. Assustado, joguei para fora do navio, mas antes que fosse levado pela correnteza, reapareceu colado em minha mão. Todo meu esforço em soltá-lo foi em vão, porque quanto mais eu puxava mais ele se grudava, como naqueles truques de mágica. Derrotado por um pedaço de papel, resolvi perguntar o destino daquela navegação a um dos passageiros que assistira deleitado à minha cena patética. “Vamos pro infinito, ué”, disse apontando para o ticket em minha mão. Conferi, era verdade. Falta muito pra chegar?, perguntei. “Já chegou desde sempre”.

E lá estava eu, no meio do infinito branco, decepcionado por não receber uma resposta filosófica, ou mesmo ter encontrado um caleidoscópio mágico que criasse cores em vending machines de 1 nickel. Percebendo a minha cara de criança que ganha roupa no Natal, ele me deu um tapa na cabeça e falou “Ô besta, acorda! Pra encontrar o infinito, não basta olhar pra dentro”. Assim, pegou meus olhos e os desvirou, mostrando o mundo de antes, mas agora diferentemente igual.

E então, acha que eu devo parar de tomar refrigerante Diet, dr.?

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2 Comments

  1. Não sei se é tão Nonsense assim.
    Numa palestra com Milton Hatoum ouvi ele dizendo que a literatura está muito diretamente relacionada com a memória. Não sei pq disse isso, mas achei que viria a calhar.
    E novamente, não sei se é tão nonsense assim. Acho muito aplicável nas “pessoas atuais” procurando a cor do infinito dentro de si mesmas…

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A herança de tesouros incalculáveis 0 898

Meu pai foi um professor de sonhos.

Minha mãe, sol a pino entre os temporais.

Enquanto ele nos ensinava que havia sempre novos caminhos e formas inexploradas entre as paisagens regulares, ela deixava aflorar suas profundezas. Eram muitas. Acho que ela nunca soube dizer quantas eram.

Com ele, aprendemos a enxergar as amarras, a vislumbrar trechos em que seria possível caminhar com mais folga, para ser um pouco mais de quem a gente é e um pouco menos de um número aprisionado a somar nos indicadores da vida na Terra. Era sempre um trajeto de muitos livros sobre a mesa, de humildade no trato com os outros, de educação e ponderação enrijecido em rebeldia sempre que se impunha uma premissa questionável.

Com ela, aprendemos a noção de libertar-nos de tudo o que nos acorrenta, e que isso leva um tempo enorme: demora mais que a vida inteira. Mas vem de minha mãe a certeza de que a voz pode falar mais firme a cada novo passo, o que não torna nada mais fácil, mas nos fortalece pra encarar os cadeados e encontrar a chave para abri-los um por um. É o que me guia na resistência: enquanto eu respirar e a vida for assim, condicionada, lucratória, servirei à desestrutura. Quem sabe até o fim já terei superado fechaduras o bastante para abrir as portas de uma existência um pouquinho mais livre, a mim e a tantos irmãos quanto possível.

Foram felizes como são as pessoas que tentam viver de verdade, e tristes como tais.

Levo deles um amor que tem o maior dos tamanhos dentre as alturas que já conheci. Não sei de muitas, menos ainda de todas. Mas já vi o Pão de Açúcar de pertinho e a Floresta Amazônica da janela do avião. Foi quando meu pai apontou para o chão e disse: “Ali tem bichos e plantas que a humanidade ainda nem sabe que existem”. Eu me impressionei com a possibilidade de haver um livro inteiro de biologia só com imagens de espécies desconhecidas, e um novo aposento se abriu em meu raciocínio; a natureza é mais, muito mais do que nos deixam ver. 

Agora, ao lado dos meus filhos, tento ser professora de sonhos sem dominá-los, a manter-se em equilíbrio sem calar.

Meu pai e minha mãe não me deixaram grandes propriedades nem engrandeciam o que era dispensável. Nunca me levaram a um fast food para voltar pra casa com o bandulho cheio de batatas fritas e um brinquedinho de montar. Em compensação, já fomos a quase todos os bons-e-baratos restaurantes da cidade, quando sempre aproveitávamos para mergulhar em digressões. Comer, fosse o que fosse, era uma celebração muito respeitosa, que comemorávamos entoando filosofias.

Eu ganhei deles uma existência que começou sólida e lúdica; que foi sensível desde o primeiro choro e fez pergunta da palavra inicial. Também de mãe e pai herdei a dedicação ao ofício dos versos, que levo comigo como uma marca de nascença. Eu manipulo palavras. É o que hoje se chama de “profissão”. Penso que é o que tenho de verdade e que não me pode ser tirado. Eu sou as ideias e histórias que eu já percorri, todas as pessoas com quem conversei, as viagens que eu fiz e o que ainda posso fazer com meu corpo e meu sorriso enquanto viver na Terra. Tudo o mais é frágil como a própria vida.

Em gratidão por ser, pelo amor que jamais me faltou, tento ser ainda mais. Pra que eles se orgulhem da passagem sem apego à posse e do carinho com que executaram uma de suas milhares de tarefas, todas sempre duras, mas cheias de grandes belezas: a de mostrar um caminho diferente, que se trilha pensando. Os poros estão continuamente abertos na farra das sensações. Sentir é obrigatório, é involuntário; mas a razão se constrói, e divide com o peito a tarefa de iluminar os nossos passos.

Assim eu vejo um adendo à herança, como uma joia rara bem protegida no cofre da família: a nossa harmonia. Conduzidos pelo tentar entender, a gente se entende. Eu acho que de tanto amar os meus irmãos eu aprendi a amar os outros. E tento olhar por dentro dos seus olhos, mesmo quando me olham de volta sem me enxergar.

Eu não sei, papai, mamãe, se eu estou fazendo render os seus investimentos.

Mas eu fiz uma poupança de muitas ideias, que engordo um pouquinho todos os dias. Deposito dentro dela meus novos livros, palavras abundantes, um pouco de choro quando a vaca está magra (acho que prefiro dizer: quando o caqui está marrento. Pode ser assim?), muito riso e danças festas travessuras quando o caqui está maduro e até algum dinheiro de vez em quando. Mas isso é só quando o mundo à minha volta decide que eu lhe tenho algum valor.

Acho que até o fim da minha vida vai dar pra comprar alguma coisa. Se não um terreno à beira do mar, pelo menos a coleção inteira dos irmãos Grimm para meus rebentinhos. Mas se não der, tudo bem. Acho que me bastará a delicadeza de saber, como vocês souberam, apontar a direção daquela outra avenida, para que os novos modelos de carro e as roupas de marca não façam a menor diferença quando há tantos livros e pessoas especiais. Se eu puder fazer isso, minha herança será a mais rica dentre todos os inventários de reis e rainhas que já desgovernaram a nossa civilização.

por Carolina Goetten

Do lado de cá da Saldanha 1 1314

Entre o cruzamento de estradas radiais, transversais e longitudinais, cercada pela arquitetura corporativa e cidadãos engravatados – cuja sobriedade é transgredida por esquinas dispostas à margem, que denunciam cotidianos bem menos empresariais – situa-se a casa onde eu moro.

Posso escolher diferentes roteiros para chegar até ela. A noroeste, a paisagem nostálgica do centro histórico constrói o caminho do Largo da Ordem, num corredor aprazível quando em dia de sol, e ainda mais bonito quando este se põe. Abaixo, a alameda Augusto Stelfeld conduz com rapidez os motoristas apressados a bairros nobres da cidade, ávidos pelo desembarque em suas amplas e aconchegantes salas de estar, pelo controle da Smart TV, pelo aroma da cerveja importada. Numa rua transversal à minha transcorre a Cruz Machado, cenário de diversas lojinhas de produtos naturais e assistências técnicas que nunca têm as peças necessárias para o conserto prometido dos equipamentos. Acima dela, o restaurante-dançante-Pantera-Negra acomoda notívagos em qualquer grau de embriaguez. Completando o leque de itinerários que me escoltam à porta de casa, pouco mais ao sul, a rua onde moro desemboca precisamente na Boca Maldita. A praça, rodeada de cafés, de engraxates e de velhos cavaleiros jamais fartos de discutir política, é palco de um incessante ir-e-vir no calçadão da rua XV de Novembro.

Dentre todos, porém, o único caminho que como filha me acolhe perpassa um trecho da Saldanha Marinho. A rua se abre no coração da cidade e talvez por isso seja a fonte de todo o seu sentir, das pulsações, dos batimentos; surge na catedral da praça Tiradentes – o marco zero de Curitiba – e, como o preâmbulo de tudo que existe, é ali que a vida desperta. A cada passo em frente deixo atrás pequenos restaurantes, a casa de fumo, as bicicletas com garupa dos jovens entregadores de água mineral, os bares, os bares e os bares; de uma ponta da quadra à outra, numa ocasião, já topei com uma freira no início e uma prostituta no final, que compartilham o ambiente em respeito mútuo. Há espaço para qualquer semelhança e qualquer diferença naquele pedaço de mundo. Na Saldanha, a vida é permitida a todos e é privilégio de ninguém.

Passo por ali sempre que o acaso me possibilita escolher o rumo dos meus passos. Há quem a evite, quem a rejeite e até quem lhe sinta aversão, pelo estigma de ponto de venda de drogas, pela prostituição declarada, pelo andar soberano com que transitam as travestis. Mas ali sobrevive uma Curitiba de outros tempos, quando os prédios não apinhavam pessoas nem enriqueciam imobiliárias. As portas das casas ainda se abrem para as ruas, os vizinhos se reconhecem, há freiras e há prostitutas que preservam o valor da partilha.

O que mais me encanta é a presença de quem se reconhece como império duradouro, enquanto chega a zombar da má fama que lhe foi atribuída. A Saldanha tem uma postura inabalável de rua que já está na vida há muito tempo para dar corda a falatórios, a pequenezas dos burgueses, a cismas de quem não sabe a vida que desperdiça ao evitar suas calçadas. Convivem sem tensão donos de banquinhas e travestis; senhorinhas e senhorinhos entre sacolas de supermercado; eu, que transito a cantar. Jamais um desrespeito me foi proferido e nunca me senti insegura quando a atravesso, no andar ou no pedal, atenta ou distraída, ardente de saudades ou ansiosa para estar só.

Desde seu desabrochar, na Tiradentes, a Saldanha se prolonga por mais quatro quilômetros. Cinco ou seis quadras adiante, desaparece pouco a pouco a arquitetura nostálgica, que dá lugar a casas luxuosas no bairro nobre do Batel. Já li sobre a região e sei que os moradores reclamam dos assaltos e da violência. Mas violenta, para mim, é a profunda desigualdade que se escancara de uma extremidade à outra da rua, com excesso para uns e falta para tantos outros. Talvez eu goste de fazer dela meu trajeto cotidiano porque sinto que ali pulsa a mais inescapável dentre todas as verdades: das cortinas de seda aos moribundos e marginalizados, a Saldanha começa e termina gritando que o mundo é injusto.

Dia desses pesquisei sobre o sujeito que dá nome à rua. Saldanha Marinho foi mais um dentre os homens ricos e brancos que, segundo os relatos que nos contam, fizeram a História acontecer. Foi grão-mestre da maçonaria, deputado, senador, advogado, jornalista e tudo o mais que quisesse, porque as oportunidades seguem uma lógica diferente para quem tem dinheiro.

Se me fosse possível rebatizá-la, a rua se chamaria Carolina Maria de Jesus, escritora, preta, mulher, as portas batidas na cara, a voz dos sem-palavra. Fez poesia em cadernos que encontrava no lixo. Temos o mesmo nome, mas meu destino já foi outro desde que nasci: nunca me faltaram cadernos para escrever quando e o quanto quisesse.

Não há cortinas de seda capazes de abafar o grito da Saldanha. Eu volto por ali para ouvir sua algazarra, para lembrar-me sempre de que a vida é injusta; que entre Carolinas de mesmo sonho a desumanidade ergueu um imenso abismo. Munida da caneta e do papel eu preparo o gatilho. Há muito declarei guerra contra as atrocidades do mundo, e nessa batalha eu já me posicionei: estou do lado de cá da Saldanha Marinho.

por Carolina Goetten