Receita 0 525

De Yuri “Raposão”.

Quando eu tinha três anos meu pai saiu de casa e fiquei morando com minha mãe. Meu pai me buscava uma vez por mês e me levava para Passa Quatro, onde ele passou a morar depois do divórcio. Uma vez, quando eu tinha seis anos, meu pai me levou a uma festa em uma chácara, onde dois de seus amigos estavam despedindo-se para tentar a vida no exterior. Havia uma mulher. Ela era morena, de pele escura e cabelos cacheados. Conversava com meu pai como se fossem velhos amigos. Em dado momento, ela, risonha, cochicou algo no ouvido do meu pai, levantou-se da cadeira e foi caminhando para dentro da casa. Meu pai permaneceu prostrado na cadeira, com olhos distantes e mortos. Depois, também se levantou. Segurou meu braço com força e começou a me puxar, em meio às risadas e o alto falatório da roda de seus amigos. Ele estava visivelmente bêbado. Não precisei sentir seu hálito, ele não abria a boca. Mas da respiração forte de seu nariz exalava um odor forte de cachaça, e isso me impediu de protestar ou lutar contra a força da sua mão que me arrastava para dentro da casa.

Entramos em um quarto escuro. Aos poucos meus olhos foram habituando-se à penumbra e comecei a identificar os elementos que
compunham o quarto: um armário duplo de madeira rústica, um criado-mudo com garrafas sobre o tampo, uma cama de casal e a amiga de meu pai, nua sobre ela. Um odor acre e curtido rasgava-me as narinas e logo percebi que era o cheiro dela, cujo peito balançava preguiçosamente ao ritmo de sua respiração.

Olhei para meu pai assustado, interpelando-o com o olhar uma explicação para aquela situação desconfortável em que eu me encontrava. Meu pai devolveu o olhar ébrio na minha direção e insinuou a cabeça na direção da mulher. Incapaz de dizer nada, estendi-lhe as palmas das mãos sem saber o que fazer. Meu pai disse “anda, mete nela! Mete nela” e gritava a cada nova repetição. Ante sua fúria, comecei a chorar. Ele sacudiu-me pelos ombros e disse pausadamente: “eu não tenho filho boiola! Eu não criei nenhum boiola! Vai lá e mete nela!”, e senti o cheiro forte de álcool e tabaco emanando de sua língua e dentes. Como a mulher não disse palavra alguma e eu não me movi, meu pai jogou-me sobre o corpo amargo da mulher e esfregou-me a cabeça em seu sexo volumoso, quente e úmido. Diante disso, ela gargalhava com uma risada gostosa de ouvir, mas meu pai vociferava nomes dirigidos a mim e à educação que minha mãe me dava. Após alguns minutos ele cessou sua fúria. Soltou minha cabeça e se dirigiu pesadamente ao banheiro da suíte, arrastando cada passo. Começou a chorar alto como uma criança. A mulher levantou-se da cama, envolveu-me em seus braços e dizia: “pronto, pronto” enquanto me fazia cafuné, ainda rindo em silêncio. Um riso que cadenciava sua respiração sem, contudo, emitir som. Sentindo seus dedos passarem entre meus cabelos, comecei a chorar alto como meu pai. Ninguém na festa ouviu o choro. Ninguém nunca ficou sabendo.

Hoje mato por necessidade e por prazer.

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Distante das Linhas de Nazca 0 1050

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 875

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski