Só mais uma daquelas 0 514

Rômulo Candal

Foi uma tempestade daquelas. Enquanto rolava na cama, num daqueles ataques de insônia que de vez em quando o acometiam, viu a janela começar a brilhar. (Um adendo: talvez “tempestade daquelas” não represente exatamente o que se passava: era uma daquelas chuvas em que o vento chora, quase uiva!, e em que o céu pisca como uma luz estroboscópica, como uma grande balada dos deuses.) Instantaneamente, Paulinho se lembrou de várias situações. Afinal, Paulinho era desses que procura significado em quaisquer fenômenos naturais, numa busca por metáforas que representem aquele momento em que ele vive.

Por exemplo: certa vez, Paulinho viu um arco-íris duplo. Arco-íris duplo, cruzando o céu. Aquele foi um momento imageticamente muito importante pra ele. Ali ele decidiu que sua vida era monocromática demais. Só usava preto ou branco (e, eventualmente, tons de cinza). Apareceu no dia seguinte com uma camisa social rosa e uma calça roxa e, no outro dia, com a mesma calça roxa e uma camisa listrada em preto-e-branco. No terceiro dia, usou calças jeans e a camisa listrada em preto-e-branco. E, quando menos notou, estava usando preto ou branco novamente, com eventuais tons de cinza.

***

Nesse caso em específico, a chuva significava uma limpeza na alma; uma renovação, sentimento de renascimento. Aquela tempestade era a oportunidade ideal. Era a hora de passar a limpo todo aquele tempo em que protelava. (Pois, afinal, Paulinho era também um procrastinador nato). “Hora de mudar”, pensava. “Hora de ser mais eu e menos os outros. De pesar prioridades e botar em prática tudo aquilo que ando planejando. Amanhã, o mundo que me segure”.

Paulinho acordou no dia seguinte às sete, mas levantou de fato às dez e meia. Mais uma vez, sucumbiu à função “soneca” de seu celular. Mais uma vez, estabeleceu prazos curtos para começar a agir de forma produtiva. E então se lembrou de várias outras tempestades que assistiu e de como, assim como naquela vez, as interpretou como um sinal do grande momento da mudança. Então percebeu que nada, absolutamente nada, mudou. Foi só mais uma tempestade.

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Distante das Linhas de Nazca 0 1013

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 836

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski