O penúltimo continente perdido 1 579

Marco Antonio.

– Você tá morrendo, Fábio. O que a gente podia, a gente fez, mas não tem mais jeito nenhum de combater… esse… mal. Você sabe que a gente tentou, né? Se você começou a acreditar em Deus, acho que era uma boa rezar pra Ele. Sua família tá ali fora.

– Tá todo mundo aí?

– Eu não conheço toda a sua família, mas tem bastante gente. Seu irmão não para de chorar, e o seu pai tá resistindo, mas dá pra ver que ele tá bem triste. Quer que eu chame eles aqui?

– Se você puder, eu agradeço. Mas, se tiver vindo todo mundo mesmo, não vai caber aqui.

– Então não veio todo mundo.

– Imaginei. Acho que eu não mereço…tanto.

– Tem uma criança pequena ali também. Será que deixo entrar, ou você prefere que não?

– Deve ser meu sobrinho.

– Deixo entrar?

– Tanto faz, Carlo. Não tô em posição de preferir muita coisa, agora.

Os amigos compartilharam uma risada quase constrangida. Quase sem graça. Quase sem sentimento. Uma quase risada, sem nenhuma vida. Naquele momento, ambos perceberam que já haviam compartilhado de outras risadas, muito mais animadas e verdadeiras. No tempo em que se divertiam de verdade um com o outro. Nada disseram a esse respeito.

Inês, a enfermeira presente, olhou para Fábio com um pouco de pena. Nos últimos meses, os piores para o (agora) paciente, intensificaram a relação que construíram ao longo dos últimos doze anos. Fábio achou que a moça não ganharia nada olhando para ele daquele jeito triste. Mais que isso: aquele olhar não o ajudaria. Mas ela não tinha culpa, se cedia a um certo sentimentalismo em um momento assim. Uns dias intermináveis de trabalho, mais umas noites no plantão no pronto-socorro iriam, inevitavelmente, apagá-lo das memórias dela, como um efeito colateral de um acidente qualquer em que o destino tivesse se metido. De qualquer forma, este “hoje” ocorreu em um dois de setembro, e ela teria mais com o que se preocupar daqui a três ou quatro dias, quando estivesse em alguma fila para pagar as contas do mês, e isso geralmente consumia bastante da atenção de sua querida amiga, e bastava mais algum tempo, e era isso.

Que fosse.

O que realmente preocupava Fábio era o funeral, seu preço, e todo o mais que isso geralmente envolve. Ele não queria incomodar ninguém.

A família entrou. Fábio queria recitar seu epitáfio.



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Distante das Linhas de Nazca 0 1048

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 871

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski