O dia em que ela sorriu, eu também sorria 1 538

postado por Rafael.

Na cama

Impossível não sorrir diante de tamanha tristeza. Foi assim que se sentiu M. ao acordar de seus sonhos. Nem de longe eram os sonhos intranquilos que tantas perninhas deram a seu amigo de outro século. Mas assim como o já dotado do incômodo par de antenas, M. só via segurança sob a própria cama.

Lá ficou. Mesmo que nada a ameaçasse. A casa vazia era algo em torno da mesma ameaça e conforto de todas as manhãs. Mas algo em M. havia mudado, algo que nunca pude saber, pois nunca fui capaz de compreender o que ela dizia.

Ouvia-a mais pela minha própria necessidade de ouvir. Impossível não sorrir diante de tamanha tristeza. Dos inevitáveis sorrisos sem riso, que tão gratuitamente distribuímos por aí. Adeus.

sob a cama

pobre H. eternamente preso ao lado de cima da cama. se ao menos tivesse coragem para abandonar seus confortos, poderíamos caminhar juntos, sem a necessidade de nossas mãos se tocarem. sinto não poder lhe trazer comigo, aqui não podemos viver nada que não seja sincero, nada que não esteja disponível ao todo.

sua ignorância por tanto tempo me cativou, devido ao tanto a ser conhecido, substituído aos poucos pelo medo do todo. como diriam no interior do méxico, entre os que vivem em palácios de outros mundos: patético.

impossível apontar qual desgraça transformou uma criança e suas fantasias em um adulto tão dependente de suas limitações. uma criança que cresceu e não percebeu que seus amores de agora são tão sérios quanto suas brincadeiras na infância. nada deveria ser levado tão a sério quanto nossas vontades. pobre H., que já nem sabe mais dos seus desejos, de onde vem tanta imprudência?

pessoas como H. deveriam ser um cu, um simples cu no lugar de seu corpo inteiro, um cu ambulante, o final de um nada, para que jamais nos decepcionássemos com suas atitudes. mas decepção, eu sei, é uma falta de algo em nós mesmos que, por ironia ou obviedade, não está disponível nos outros.

aqui estou eu, neste universo que tanto me aconchega, pois sou eu, posso mergulhar sem me preocupar com o que vou enxergar ao voltar à tona, porque lá estarei eu, assim como estou aqui, com este azul-quase-preto abaixo e o azul-quase-branco acima.

queria contar pro H. como é aqui, mas não saberia descrever, pois se fosse falar, eu deveria ser honesta, não poderia me entregar ao que imagino, ao que sinto, teria de fazer uma descrição fiel, como jornalistas e historiadores desperdiçam suas vidas defendendo que conseguem fazer.

infinitos como este não se explicam com palavras pronunciadas e ordenadas para serem ouvidas, pois elas são definidas, limitadas. e H. jamais soube compreender as coisas que não são ditas, jamais soube o que pode preencher um silêncio.

pobre H., como pode continuar a viver com um sorriso tão sem graça como o que desfila por aí?, impossível não sorrir diante de tamanha tristeza.

guardando tudo isso só em mim, posso me entregar a universos a partir de uma série de pulsações internas, que às vezes conduzem direito, às vezes não.

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Distante das Linhas de Nazca 0 968

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 782

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski