Eles 0 702

escrito por Leandro Fagundes.

Acordei atrasado e com as pernas molhadas de suor, pois o sol já atravessava a janela e vinha bater em cheio no meu cobertor. Espreguiçando-me, empurrei-o com os pés até que ele caísse no chão, soltando um pequeno grunhido, sem me preocupar com o que eles poderiam falar, caso acordassem. Mas essa minha preocupação era inútil porque eu sabia que eles não estavam mais ali. Talvez eu estivesse querendo me iludir e não pensar que, quando enfim criasse coragem e me levantasse daquela cama, não os encontraria. Porque a presença deles, apesar de incômoda no início, foi anulando aquela terrível sensação de solidão em que eu me encontrava.

Eles apareceram do nada e sem motivo aparente para mim. Comecei a perceber a presença deles pelos vestígios que deixavam: restos de biscoito no tapete da sala, latinhas de ervilha, milho e leite condensado com pequenas marcas nas bordas como se minúsculos dentes tivessem tentado abri-las. Na geladeira, frutas e legumes também apareciam com mordidinhas. Na despensa, pacotes de macarrão e bolacha eram abertos e o conteúdo esparramado.

Primeiro achei que se tratava de ratos e cheguei a falar com o síndico, que sem nada entender me disse que não havia outras reclamações e, além disso, há pouco tempo todo o prédio havia sido dedetizado. Não satisfeito, ao encontrar no elevador a senhora que é minha vizinha de andar, perguntei se por acaso ela não havia percebido ratos em seu apartamento. Ela mal me deixou terminar e com desconfiança respondeu que não. Depois, ao sairmos do elevador e antes que eu entrasse no meu apartamento, olhou-me com piedade e perguntou se eu estava bem. Respondi que talvez.

Mas os sinais continuavam e agora eram minhas roupas espalhadas pela casa, meus livros abertos e com pequenas pegadas de chocolate nas folhas (eles adoravam chocolate). A senhora que uma vez por semana vem limpar a casa perguntou-me a respeito da bagunça. Respondi que eram sobrinhos que agora deram para me visitar, sem que ela soubesse que eu não tinha sobrinhos.

Um dia pensei em espalhar ratoeiras pela casa, distribuídas na sala, despensa, quarto, banheiro e num pequeno escritório. Mas no outro dia elas estavam intactas, como se eles não tivessem passado por ali. Assim, como não mais me incomodavam e, pelo contrário, até me faziam companhia, resolvi deixá-los em paz.

Mas a presença deles foi se tornando cada vez mais notada por mim e até pelos vizinhos. Pelos vizinhos, pelo barulho que faziam, contam, durante toda a tarde, em que eu não estou em casa. Segundo uma das minhas vizinhas de andar, eram conversas em uma língua estranha, que seriam imperceptíveis caso não houvesse centenas deles espalhados pela casa. Por mim, pelos vestígios que deixavam, como eu já falei, porque vê-los eu nunca vi. Nunca me deram essa chance. Vontade e tentativas não faltaram. Desde chegar mais cedo da agência e abrir rapidamente a porta para surpreendê-los, fingir que dormia no sofá da sala e vez ou outra abrir os olhos ou até acordar de madrugada e acender rapidamente uma lanterna estrategicamente escondida sob o travesseiro. Tudo em vão.

Certa vez, de manhã, pensei ter visto um deles no banheiro, tomando banho na pia. Mas já estava tão acostumado a eles que a princípio não liguei, passei direto e fui urinar. Quando me dei conta e virei para olhar novamente, ele já não estava mais ali, se é que realmente estivesse. Eu digo isso porque, como não se mostravam para mim, comecei a criar situações em que me via falando com eles, numa tentativa de contato. Acordava de manhã e falava alto bom dia, na esperança que me respondessem. Quando chegava em casa, cumprimentava-os. Deixava pratos com chocolate (a comida preferida deles) e xícaras de chá de erva-doce (a bebida preferida deles) espalhados pela casa, também deixava a TV e o rádio ligados. Uma vez cheguei a ligar para casa, esperando que eles atendessem o telefone. Uma outra, deixei um bilhete no chão, no qual escrevi que não me importava por eles estarem ali, que eram bem-vindos, que ficassem à vontade, que aparecessem para conversar, tomar uma bebida, e muitas outras bobagens.

O fato é que, a partir dessas minhas incursões, eles começaram a não deixar mais rastos. A impressão que eu tive é que não queriam ser notados, apesar de estarem ali e isso ser impossível. Como lembranças ruins que a gente tem e é obrigado a levar consigo até o fim da vida – apesar das tentativas de esquecê-las – e, mesmo que a gente não queira e faça esforços para que isso não aconteça, vez ou outra elas afloram para nos atormentar, invadem nossas vidas, preenchendo-as de um vazio angustiante e silencioso, onde não há lugar para mais nada.

E, quando acordei atrasado e com as pernas molhadas de suor e me espreguicei, soltando um pequeno grunhido, sem me preocupar com o que eles poderiam falar, caso acordassem, eu estava mentindo para mim mesmo, pois sabia que eles não estavam mais ali e que isso era para sempre. E foi assim que eu me vi novamente só. E se agora ainda procuro vestígios, sinais que não mais existem, é para tentar recriar um mundo todo especial deles. Mas só o que consigo é deixar meu mundo cada vez menor, minúsculo, que qualquer dia me pego do tamanho deles, quem sabe até posso me juntar a eles, ou desaparecer sem deixar marcas.

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Escala de Baumé 0 2225

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3488

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai