Procura-se 0 730

Era uma noite bonita, mas fria, com a Lua brilhando na escuridão e os casais na rua aquecendo a mão um do outro com o ar quente das próprias bocas, quando, pelo rádio, ouvi a nova oportunidade que a vida me apresentava.

Desde que cheguei neste país, com passaporte falso e dinheiro para apenas três dias de comida e hospedagem, fui obrigado a fugir correndo de um lado a outro. Depois de tudo o que fiz, é provável que fosse apenas o Karma esbofeteando minha face com a sutil ironia que só o universo seria capaz de providenciar. Mas com o passar das décadas, o costume de estar em movimento tornou-se tão intrínseco, que achei que só conseguiria ficar parado dentro de um caixão, e isso não figurava nos meus planos mais próximos. Foi quando, por um misto de fome e frio, me vi aceitando o emprego de taxista, que mantive até dias atrás.  Não era dos piores, confesso. Eu não ganhava muito, mas o troco era suficiente para me manter. Não tão bem quanto na minha cidade, mas nunca é, não é mesmo? No final das contas, valia para conhecer pessoas novas, e quem sabe, até um conterrâneo.

Naquela noite eu levava um casal de turistas ao teatro para a apresentação de uma orquestra. Os dois eram jovens, e embora ele não tivesse ficado em um ângulo que pudesse ser visto pelo retrovisor, o casal me lembrava muito da minha juventude, e tudo o que deixei para trás quando saí da Alemanha. O tom da pele, os cabelos caindo levemente no ombro, o tamanho da cintura e o jeito de se encolher agarrando o braço dele, tudo naquela jovem lembrava a minha Kirsten. Aliás, depois destes mais de 50 anos, não sabia mais se a imagem que eu tinha correspondia com a verdade, ou apenas com os meus desejos, ainda que ela estivesse igual em todos os meus sonhos, desde o último minuto que olhei para aqueles olhos levemente esverdeados com uma manchinha mais escura no canto direito.

O sonho, inclusive, era sempre o mesmo. Em uma tarde cinza, fria, nos encontrávamos na praça em que nos conhecemos, e eu a abraçava como se abraça a alguém que já se foi há tempos. Na verdade, agora me lembro, com o passar dos anos algumas coisas mudaram. Logo no início, ela falava pra eu me cuidar, que sabia que eu não havia feito nada errado, e estaria me aguardando quando eu voltasse. Anos mais tarde, passou a perguntar se aquilo estava mesmo certo, e que talvez algumas pessoas tenham sofrido. Depois passou a me olhar com um pouco de receio, até que um dia falou que eu deveria me entregar. A conclusão continuava sempre a mesma: eu ignorava seu pedido, e dizia que não havia passado um dia sequer em que eu não pensasse nela, o que era a maior verdade da minha vida. Ela me abraçava e desaparecia virando fumaça, até que eu, desesperado por perder meu amor, acordava com falta de ar.

Mas naquela noite, ao ouvir o anúncio no rádio, o plano da volta se estruturou em minha cabeça tão rapidamente quanto ela desaparecia em meus sonhos. Decidi que Dávid faria a denúncia, para assim receber a recompensa, e eu me deixaria ser pego. Era o mínimo que eu poderia fazer por aquele homem, para pagar os tantos anos que me emprestou o táxi e dividiu o lucro comigo.

Agora estou aqui, algemado neste avião, com cinco oficiais me cercando, e mais alguns outros disfarçados ao longo da aeronave. O que está à minha esquerda mostra a capa do jornal, com a minha face estampada. A manchete, em enormes letras negras, noticiava com orgulho “Criminoso nazista mais procurado do mundo foi achado em Budapeste”. Para mim, muito mais do que isto, diz “László Csatáry volta para perto de sua Kirsten”. O resto é história.

escrito por André Petrini.
Foto: Stefan Klimmer / cc

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Escala de Baumé 0 1915

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3207

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai