Trecho 1 643

Marco Antonio.

Dois caras trabalhando atrás do balcão de um bar enquanto uma mulher, a chefe, observa a cena de uma das mesas, onde está fazendo contas e pensando se havia feito certo em contratar um deles para trabalhar ali, ainda mais pelo fato de que ela só o fez porque o outro insistiu muito, dizendo que o cara era muito amigo dele, e que estava precisando de emprego depois de ter passado por uns problemas, e talvez fizesse muito sentido em tentar ajudar o cara convidando ele pra esse tipo de emprego, mas isso não era de forma alguma um comentário desrespeitoso com o bar, mas é que talvez fizesse sentido mesmo, porque alguma coisa tem que fazer sentido nessa vida, e a hora é sempre boa pra estender a mão pra um amigo. Ainda mais um de confiança. 

Copos, pratos, talheres, detergente, panos, esponjas, torneira, água, fluxo, vida, morte, lápis, borracha, caneta, papéis, planilhas, tabelas, bônus para funcionários, contrato do recém-chegado, assinaturas, banco. Coisas. Um ex-jogador de futebol qualquer falando na televisão sobre a Copa do Mundo que está chegando, tentando vender algum produto ou serviço que ela não consegue entender exatamente qual, porque tem mais o que fazer. A trilha sonora do comercial, no entanto, é interessante. Ou pelo menos ela acredita que sim. Qual é mesmo o nome desse cara? Acho que ele era lateral. Sei lá. O banco fecha daqui a pouco. Banco de dinheiro. Banco de reservas. Banco de leite. Bando de palermas. Ninguém mais usa a palavra “palerma”, a não ser que seja pra fazer piada, ou pra parecer antiquado. Por que as pessoas tentam parecer alguma coisa ou outra? – Um dos quatro grandes mistérios da espécie. 

Ainda falta muito tempo para o bar abrir oficialmente, mas os dois jovens estão concentrados em suas atividades. São bons funcionários. Não causam problemas. Também não criam soluções, mas pra esse tipo de função, esses caras bastam. Acho que eles moram juntos. Pelo menos, chegam todo dia juntos no trabalho. Não sei. Não interessa. São amantes? Amigos? Matam pessoas por dinheiro? 

Acho que não.

O rapaz que foi contratado por sugestão e insistência do outro nada sabe sobre a negociação que seu amigo e a dona do lugar realizaram a este respeito, porque nenhum dos dois lhe disse nada, e não é só neste aspecto que o ditado que diz que a ignorância é uma bênção se prova aplicável e verdadeiro na trajetória de vida dele, cujo nome não é sabido, mas acredito que podemos chamá-lo de Dois, com inicial maiúscula, posto que se trata de um nome ou quase isso.

Há tanto que não sabemos.

O cara que mediou a tal negociação, a quem podemos chamar de Um, está planejando dizer para Dois que ele, Dois, lhe deve um favor, muito embora Dois já tenha essa noção bastante clara em sua cabeça, e se sinta inclusive bastante desconfortável com isso, porque ele, ainda Dois, não acha que a cobrança por uma gentileza seja um ato normal de uma amizade saudável ou correta. Mas há tanta coisa que não é saudável, correta ou clara (não é através destas palavras que ele pensa, mas não importa muito) nessa vida, que só mais essa não faz tanta diferença. E no fim de tudo, aquele emprego é apenas uma solução temporária, e tanto Um quanto Dois sabem disso.

Sexta-feira ou terça ou quarta. Tanto faz. Se só as menores das coisas fazem sentido, não percamos tempo tentando desvendar em que dia esse evento se passa. Mas parece meio de semana. Calmo demais. Pouco barulho. (a trilha sonora do nada).

Uma mulher linda adentra o bar. E tudo muda quando uma mulher linda entra em um lugar, qualquer que seja ele. Cenários são apenas cenários em tons pastéis, mas quando uma mulher linda passa da porta para dentro, eles mudam completamente. Ganham vida, cores, sons e cheiros. Para mais sobre o assunto, consulte a vida e observe os ambientes e as pessoas, prestando especial atenção ao evento que é a entrada de uma mulher bonita em um lugar.

Seguremos a respiração por uns segundos.

(…)

Concentração. Vamos tentar não parecer nervosos. Ainda mais em um momento como este, e na presença de tão bela moça. Tentar não parecer. Parecer.

(os grandes mistérios).

A porta do bar estava destrancada. O bairro é seguro. Dois está saindo das dependências do balcão do bar, e vai começar a limpar as mesas. Lança um “opa!” falsamente despretensioso para ela. Ela é linda, jovem, e sequer dirige o olhar para a dona do bar. Talvez ela nem saiba que a mulher sentada é quem detém o poder naquele lugar. Talvez não se importasse se soubesse. Às mulheres bonitas: vocês pedem licença para fazer o que fazem?

Se não pedem deveriam.

Chamaremos a moça linda de Mulher, com inicial maiúscula. Ela está ansiosa. Mal cumprimenta os dois funcionários do bar, seus amigos. “Amigos”, na verdade. Os três formam um grupo até que coeso. Ela abre a boca pra dizer alguma coisa, mas apenas Um está prestando a devida atenção. Dois é um cara meio desligado, e no momento está mais ocupado que Um. Dentre os três, Dois é o que tem menos noção do tamanho do ato que estão prestes a realizar juntos. Ele ainda não percebeu qual é o assunto que fez Mulher vir até eles nessa tarde tão vazia, e tão cheia de sensações menores.

Ela usa o balcão do bar como apoio para os cotovelos. Um pergunta se ela está bem. Diz que ela parece um fantasma de tão branca. Diz pra ela se sentar. Pergunta se ela está tremendo. Ele está um pouco confuso. Ela não diz nada sobre a tremedeira, que de fato está acontecendo. Ela prefere dizer algo muito mais importante que isso:

– Eu…encontrei…

A pausa depois de um comentário de uma mulher bonita.

(…)

Um e Dois entendem. Se entreolham. Como os zumbis dos filmes, naquele exato momento em que sentem o cheiro de gente viva, largam o que estavam fazendo e dirigem-se lentamente para encarar Mulher com mais propriedade. Estão sedentos por informações. Ela repete:

– Eu…encontrei…

Um sabe que é verdade. Dois está para descobrir.

A dona do bar foi ao banheiro. Os três sentam para conversar sobre o grande assunto, e sobre a pessoa que Mulher encontrou. Ela tem um plano. Ela sempre tem. Ela sempre vai ter.

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Escala de Baumé 0 1918

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3209

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai