Carta ao Capitão 2 776

escrito por André Petrini.

Terra/Continente Infra, 2169
Ao Capitão Aureliano Buenanoche.

Excelentíssimo Capitão, em vista da minha grande admiração pelo seu trabalho à frente do nosso Planeta-Nave, venho, por meio desta, fazer uma solicitação de máxima importância para a conclusão dos nossos objetivos de evolução constante. Entendo que alguns hábitos estão arraigados em nossos cotidianos de tal forma que se tornam quase automáticos, mas acredito que se pararmos para uma análise rápida e racional, perceberemos que eles nem sempre fazem sentido. Isto posto, gostaria de sugerir a revisão de um hábito, uma convenção – e se me permite, quase uma praga, a qual estamos acostumados a chamar de “horário comercial”. Não a sua existência em si, pois sei de sua importância em nossos sistemas comerciais tanto intra quanto extraplanetários, mas minha crítica refere-se exclusivamente ao período em que esse flagelo se realiza. Afinal, após séculos de evolução, ainda somos obrigados a iniciar nossas obrigações diárias às 8 horas da manhã e não há uma alma sequer, nesta ou em qualquer galáxia, que faça isso com bom gosto.

Veja bem, Capitão, longe de mim querer contestar qualquer decisão em sua maneira de comandar nossa nave, mas em vista de sua linhagem de Capitães, Coronéis, Padres e Políticos que vêm nos direcionando rumo às galáxias mais pacíficas, tenho certeza que compreende a necessidade de uma tripulação que trabalhe com um sorriso no rosto. Nós, meros humanos da Terra, obviamente temos muito a aprender com a inteligência de nossos vizinhos Budnianos, com a sabedoria milenar dos Schaefs, a alegria constante dos Marcolóculos, o silêncio lendário dos Scouts, a doçura dos Slonks, a perseverança dos Graes e a amizade dos Kaltows, mas se tem uma coisa que aprendemos nos anos de convivência com estes planetas-irmãos, foi que a união nos leva a galáxias mais distantes. E sinceramente, sr. Buenanoche, não há união que resista à interrupção contínua e diária do sono em horas tão prematuras.

Sei que nesses anos aprendemos muito e nossa morada já não padece das falácias pelas quais nossos ancestrais passaram, dentre as quais reverencio a recente inovação que não permite o acúmulo de calorias pela ingestão de bacon, a qual considero um passo importante rumo à felicidade plena da humanidade. Além disso, a completa extinção das calças saruel, sandálias Crocs, esmaltes vermelhos, reality shows, torcidas organizadas, funcionários públicos, professores de ginástica laboral, agentes de trânsito e tantos outros exemplos que não cabem nestas linhas, mostraram uma grande consciência e respeito de sua família pelos povos dos 3 continentes. Óbvio, a maioria destes itens ainda é encontrado nos mercados ilegais, mas a simples criminalização dos aplausos ao final da ginástica, já indica o pensamento que deveria ser adotado contra as corporações que nos forçam o despertar em horários impróprios.

Aureliano, meu amigo, sei que não deve receber muitas cartas e é um grande infortúnio que receba uma com tal pedido. Sei também que estamos em desvantagem em relação aos planetas que têm mais de 24 horas em seus dias, mas depois de tantos anos cruzando os oceanos em busca de profecias e invenções para o progresso do mundo, meu propósito não é o de diminuir o trabalho, mas o de aumentar o tempo para sonhar.

Do seu amigo de gerações,
Melquíades

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Escala de Baumé 0 1920

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3211

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai