Délia 0 643

escrito por Leandro Fagundes.

“Vem ouvir lindas histórias
que por seu amor sonhei.
Vem saber quantas vitórias, morena,
por mares que só eu sei.”

 – Chico Buarque, Morena dos olhos d’água.

 

A primeira vez que Délia foi lá em casa eu tinha seis ou sete anos, não me lembro bem. Com o passar do tempo, insistimos em querer lembrar de tudo o que passou conosco e quando não conseguimos inventamos. Comigo, não. Os fatos que em mim sobrevivem, lembro-os com um raro prazer de criança que esconde joaninhas em uma caixa de fósforos, alegrando-se cada vez que as vê ou as mostra aos amigos de escola. E do que não me lembro? Melhor nem pensar. Foram joaninhas que escaparam, perderam-se, incapazes de permanecerem ali para serem lembradas, e a isso preferiram o esquecimento – ou a liberdade –, o que aprovo sem contestar e sem nenhum ressentimento.

Mas, voltando a Délia, ela aparecia lá em casa sem avisar. Tanto que nas primeiras visitas eu a tomei como invasora, chegando a odiá-la com um ódio de criança que não é bem um ódio, mas um medo de que alguém chegue e roube seus brinquedos, seu espaço, você mesmo. E então só lhe resta odiar, um pouquinho, para se fazer presente e defender-se.

A presença daquela mulher em nossa casa me assustava e me fazia esconder no quarto, onde não se ouvia voz nenhuma, onde não havia nada, só a ausência de Délia. E essa ausência – saberia eu mais tarde – era um modo que arranjei para pensar nela, para dizer que eu precisava de suas visitas, pois negando a presença de Délia eu estava ao mesmo tempo afirmando a sua existência e a minha necessidade de senti-la perto de mim.

Lembro-me que depois me culpei por ter odiado Délia assim, por um dia ter querido mal a ela. Pois não sei bem como foi, mas a partir de um momento eu comecei a ver em Délia a minha salvação. E esperava, esperava e esperava suas visitas, mesmo às vezes sabendo que ela poderia não vir, mas o simples fato de pensar que talvez ela aparecesse já me fazia ficar contente. E em pouco tempo o que era aversão transformou-se em uma afeição sem tamanho.

Eu a esperava apoiado numa almofada de leão dourado para que pudesse alcançar a janela da sala. Quando ela enfim aparecia, abria o pequeno portão azul e depois olhava para mim na janela. Então eu ouvia o meu coração bater mais forte e ia me sentindo cada vez mais alegre, dava pulos e cantava, porque sabia que de alguma maneira cada visita de Délia traria algo novo para minha vida.

Das coisas que me lembro (ou não) com exatidão, uma é o rosto de Délia. Um rosto singular, de sobrancelhas grossas e lábios finos, cabelos quase sempre amarrados ou seguros por um arco. Tinha uma beleza encantadora aquela Délia dos meus seis ou sete anos, uma beleza de conto de fadas de que eu nunca me esqueceria. Lembro-me também dos doces que ela me trazia, doces de abóbora em forma de coração, e que eu comia como se fossem o próprio coração de Délia em minhas mãos. E ainda hoje, passado tanto tempo, ainda me lembro das coisas que ela me dizia, coisas ternas, simples, que hoje me fazem tanta falta, coisas como “minha criança”, “meu menino querido” ou “meu pequenino”. E também dos passeios que fazíamos, em que andávamos sempre de mãos dadas. Délia a me mostrar tudo, e eu mais interessado em sentir o suave de sua mão, os dedos finos e longos, a quentura gostosa deles entrelaçados nos meus.

Um dia, não sei por que razão, Délia sumiu e não mais voltou. Durante dias fiquei na janela esperando que ela aparecesse novamente, o que nunca aconteceu. Lembro-me que chorava e dava chutes na almofada de leão dourado, culpando-o pelo sumiço de Délia. Os outros estranhavam o meu comportamento, a minha falta de fome, o sono e o choro. – Eu disse que esse menino não estava bem!, diziam. Mas eles não entendiam, não podiam entender, somente eu, Délia e agora a ausência dela. Eles não entendiam que na minha inocência de criança eu fiz de Délia a minha primeira namorada, o meu primeiro contato com o mundo fora daquela casa. Fiz de Délia o meu souvenir d’enfance, a mais nítida das lembranças, a joaninha que insiste em permanecer na caixa de fósforos apesar das frequentes insistências para que ela saia.

Mas passado tanto tempo não distingo o que realmente aconteceu do que é invenção minha. Se realmente existiu alguém como Délia ou, então, se eu tenha existido dessa forma. Por essas e outras é que hoje me sinto preso, fechado, como se também estivesse numa caixa, à espera de que venha alguém abri-la, alguém como Délia, e me liberte sem dizer uma palavra.

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Escala de Baumé 0 2072

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3340

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai