Sentir 0 670

postado por Rafael.

estava em paz comigo mesmo, mudo e em paz, até que surgiram as coisas, até que surgiu Ela. as coisas sempre existiram, as coisas sempre estiveram em seus lugares ou ignoradas, mas Ela era como criança, que jamais está satisfeita enquanto não trocar algo de lugar. e trocava, e pintava, e rasgava, e eu desesperado, feito mãe que acredita manter a ordem, acreditava manter o controle sobre tudo. e realmente mantinha, até que precisasse sentir algo.

Bom dia.
é Ela.

Bom dia, obrigado!
por que eu agradeci?

Ei, calma! Deixa eu te contar.

eu parei, não sei porquê, sabia que me arrependeria, e só estou lhe contando, ou imaginando como contaria se tivesse alguém para contar, porque me arrependo, um arrependimento vão, pois não muda em nada a disposição das coisas.

É que, bem, nem sei, o frio, é tanto trabalho que a gente acaba vivendo em função dele. Correria né?
por que eu sempre caio nessas? nunca pude falar algo decente sobre isso tudo pra Ela, talvez porque Ela não ouvisse, talvez porque eu fosse mudo para essas coisas.

Eu acho que sonhei com você esta noite!

é isso, exatamente isso, Ela percebeu, foi convencida pela realidade, sou finalmente inquilino do seu sub consciente. um psicanalista qualquer me daria um diagnóstico favorável, mas quem precisa de um psicanalista quando a realidade te engloba, se adequa a você, vive com você?

por anos fui um exilado desta realidade, por anos não pude vive-la sem morrer, sem perder partes de mim diariamente ao vê-la viver. por anos tive a certeza de que a vida era apenas um longo e doloroso caminho para a morte, onde eu chegaria sozinho, graças às minhas forças, a um orgulho.

e lá no meu exílio descobri que tenho tudo comigo, tudo menor, tudo.  tenho comigo tudo o que preciso, inclusive você, que por ventura venha a ouvir esta história. sozinho em meu exílio mudo descobri que a miniaturização é a alternativa para quem não pode estar, para quem não pode ser, é como podemos levar algo que nos foge às mãos, algo que insiste em estar onde não podemos mais viver. sempre tenho tudo comigo, sempre tive tudo em paz, até mesmo quando Ela surgia.
e foi assim que deixei de ser o pobre que pedia licença para viver meus próprios prazeres, é assim que fui parar nos sonhos dela.

passei dias a fio dizendo tudo, tudo o que precisava, e só depois percebia o quanto havia estado calado, nem mesmo o silêncio havia me ouvido, pois não pude, não quis, não sei, no fundo tive medo de ouvir tudo o que me calava.

me condicionei a aprender a conviver com o vazio, com a distância, com Ela revirando tudo sempre que surgia. aprendi a estar comigo só, com o silêncio que me dizia a cada segundo, cada medo meu, e eu ouvia e aprendia a conviver, a revidar, a dizer sem falar, pois ninguém me ouviria.

enfim, agora a tenho aqui, diante de mim, finalmente entendendo a verdade inevitável, até mesmo seus outros eus a convencem do caminho ao meu lado, e eu não posso fazer nada além de pedir desculpas pelo que não fiz, fingir uma pressa pelo que não me importa viver, até quando este exílio iria durar não fosse Ela se convencer de seu próprio caminho junto ao meu?

consegui adentrar neste músculo que se finge tão forte a ponto de guardar sentimentos tão extremos, e que se revela tão vulnerável a ponto de acabar com a segurança de todos que o possuem em segredo ou sinceridade.

finalmente posso voltar à minha vida, à vida que tanto adiei para esperar que Ela conseguisse me alcançar. finalmente tínhamos diante de nós o caminho à eternidade, uma volta à inocência, um regresso ao espaço, um retorno aos quinze anos aparentemente abandonados para sempre.

este mundo me pesava, assim como pesam os mundos, por menores que sejam, sobre os ombros de quem os carrega, sempre são os mais pesados, os mais injustos, e o meu não era diferente.

onde será que estivemos em seu sonho, será que Ela pode realmente nos atingir? sempre me pareceu alguém insegura de suas próprias vontades, assim como sempre fomos em algum momento de nossas vidas tão sonhadoras, que sempre buscamos e arriscamos no papel.

sei que jamais serei o único amante dela, mas tenho agora a chance de ser o preferido. o que sinto com isso é uma satisfação, mas satisfação nunca me alimentou, seguirei com fome, seguirei com fome ao seu lado, nesta trilha que é só nossa, pois o fim não importa, temos um caminho.

sempre achei que houvesse levado o amor a sério demais, até perceber que todos estes silêncios é que me faziam viver, eram eles que me mantinham vivo em meio a esta aparente dor, vivida de maneira tão sincera por saber que isto tudo iria passar, e nada me restaria a não ser um passado, um passado sentido, um passado vivido.

por isso estou aqui, porque sobrevivi ao exílio de minha própria vida para recebe-la em nosso inevitável caminho, e aqui reabro minha vida para que eu mesmo a possa viver.

Sério? E onde a gente estava?
no fundo, eu queria dizer obrigado de volta, mas já não era tão vulnerável.

Sim… Bem, sei lá, tinha um monte de gente, acho. Tenho dormido mal ultimamente. Mas eu adoro sonhos, qual o seu signo?

Capricórnio. E o seu?
fingi interesse nela, jamais seria o responsável por apagar aquela chama, independente do tamanho, diante de mim, e ali eu me sentia vivo, minha vida fazia sentido.

preciso sentir, onde estão as minhas coisas, cadê o chão para o próximo passo, o nosso primeiro-passo-juntos? jamais soube seu signo, por mais que a tenha ouvido dizer, não estava surdo, mas mudo, novamente.

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Distante das Linhas de Nazca 0 1050

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 877

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski