cidade 1 635

Marco Antonio

Fomos almoçar juntos, quase todos daqui.

Foi difícil de arranjar uma vaga pra estacionar. Não que faça diferença pra mim, que não dirijo. Pelo menos já sabíamos o que queríamos antes de chegar ao restaurante, de forma que poupamos tempo, nosso e do garçom, quando nos acomodamos em nossas cadeiras. Estranhei o fato de que tivemos que esperar para conseguir uma mesa, já que o restaurante é uma churrascaria normal, e não uma dessas casas afetadas que são resenhadas em jornais de grande circulação, ou em uma dessas revistas que gente rica finge que gosta pra não ficar de fora dos círculos de coisas que gente rica faz. Mas não sei. Talvez eu tenha me enganado, porque não acompanho críticas gastronômicas. Talvez o lugar seja de fato famoso. Talvez alguém seja atropelado agora ali na rua, enquanto escrevo. Não sei. Viu aquele negócio da gatonet que você comentou esses dias? Se sim, quanto é?

Antes de anotar os pedidos dos pratos, o garçom perguntou o que queríamos tomar. Todos bebemos ontem à noite, o bastante pra justificar ressacas em graus variados pela manhã, mas ainda assim pensamos em pedir cerveja. Dizem que é a melhor cura pra bebedeira. Sei lá. Nem sei também se alguém além de mim queria mesmo beber álcool. Passamos por dois ou três segundos de impasse, até que alguém pediu uma coca e um copo com limão e gelo. O ato permitiu que todos pensássemos e escolhêssemos por nós mesmos (sem nos importar com o que os demais presentes queriam), através de algum mecanismo tortuoso, cujo funcionamento não me arrisco a explicar.

Queria que você estivesse ali.

Pra falar um pouco de bobagens e um pouco de coisas sérias, sabe?

O “especial” serve cinco pessoas tranquilamente, por um preço honesto. O combo é composto por diversas porções, todas enormes. Pedimos. A primeira bandeja que chegou à nossa mesa continha polenta frita. Ótimo. Bom para abrir o apetite, e também para acompanhar a primeira rodada de bebidas. Ensaiei usar meu garfo para pegar uma daquelas delícias, mas o pessoal já estava usando as mãos pra mesma atividade, e aí me senti mais confortável pra fazer o mesmo. Usaríamos nossos garfos em outros ambientes, penso eu. Ali, não era necessário.

As demais porções começaram a chegar. Arroz, salada, batata frita, carne, enfim. Essas coisas. Um pede para mandar um azeite para aquele lado da mesa, outro não come salada, alguém suja o braço na bandeja de maionese. Aquilo de sempre.

Um garçom mais velho, com cara de chefe dos outros, veio falar com a gente. Perguntou se estava tudo bem. Se era naquele ponto que preferíamos a carne. Qualquer coisa, era só chamar ele. Natural, se ele for mesmo chefe. Não faz muita diferença, né?

Almoçamos. Voltamos aos carros, e posteriormente às atividades da tarde. O dia estava lindo, tal qual você. O que estranhei, já que os dias andam tão esquisitos. Os seus também?

Ontem filmei várias cenas da cidade vazia, do feriado. Edito amanhã e te mando, lá por meia noite, espero. Tenho dormido bem numas noites e mal em outras. Sei lá do que.

Sinto sua falta.

Demore menos pra mandar resposta dessa vez.

Te amo.

Beijo.

Até.

Previous ArticleNext Article

1 Comment

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Vida comum parte 1 0 2590

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 2498

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”