versão 0 625

postado por Rafael.

Noite de terça-feira, nada de grandioso acontece na vida das pessoas e, para algumas, o que era grande já não é mais. Numa mesa de canto no bar do Gota quatro amigos parecem estar numa daquelas noites em que tudo é falar alto, gesticular e rir desnecessariamente. Só perceberia que não é exatamente isso quem olhasse o jovem de vermelho de costas pra parede. Ele não fala, apenas olha, um por um.

Elian foi o último a chegar à mesa, e seu intuito era um só: Léa. Suas falas e atitudes eram inteiramente direcionadas a ela, e funcionavam, pois ela é do tipo que alimentar o ego é prioridade em relação aos outros. É o único caso de cronópio que se converteu em fama (que se tenha notícia por essas bandas). Desde então, não pronuncia frase que não seja em primeira pessoa. Desconhece culto que não o dedicado a si.

Léa chegou por volta das 20h30, mostrou seu cabelo novo e contou uma infinidade de histórias (sempre em primeira pessoa) a seus dois amigos, aparentemente entediados. Uma lástima quando comparada à Léa de outros tempos.

Elian chegou uns dez minutos depois e foi o expectador perfeito, retribuindo com cigarros de tempo em tempo (apenas para lhe tirar da mesa e a ter só pra ele). Cortejava como pontuasse.

Alam chega (como de costume) cinquenta  minutos atrasado. Encontra Carlo já levemente embriagado, como é costume entre os que aguardam muito tempo sozinhos em um bar. E conversaram ali, uma meia hora sobre as coisas, não como elas são, mas como deveriam ser, até que chegou Léa e seu monólogo transbordando eus, seguida for Elian e sua busca obsessiva por exercer algum magnetismo nela.

Carlo foi o primeiro a chegar ao bar do Gota, próximo ao momento em que o sol se punha. Embebeu suas angústias em cerveja até que chegaram Alam, Léa e Elian. Seu interesse diminuiu constantemente, até que se despediu e foi embora, deixando um bilhete sobre a mesa, debaixo de um copo vazio, para que algum deles o encontrasse acidentalmente.

Os três foram embora sem perceber o papel, que foi jogado no lixo por Gota ao limpar a mesa.

Na lixeira, virado para baixo, como garantia de que ninguém jamais o lerá, o bilhete dizia:

não é nada
disso, somos a-
penas impressões
de um narra-
dor amar-
gurado.

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Distante das Linhas de Nazca 0 1132

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 1002

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski