Carne e sangue, osso e sonho 0 840

Ela entrou num ônibus rumo à residência de um casal de amigos que moram na zona norte de Curitiba. A viagem partiria do centro e seria mais uma vez rápida e tranquila, não fosse o que foi.

Era uma tarde quente de sábado, e lá ia a jovem para essa reunião na qual fariam, os três, coisas que amigos fazem, como rir de bobagens e entrecortar momentos descontraídos com conversas sobre vida, morte e tudo que acontece entre nosso começo e nosso fim.

Resolveu descer do ônibus três quadras antes de onde normalmente faria, para caminhar um pouco, esticar as pernas e aproveitar o efeito do vento ameno que batia naquele dia de tanto calor. Mas havia um problema na área do gramadão de uma esquina, que antecede, no sentido do trajeto que ela estava percorrendo, três quadras de futebol de areia e pequenas lojas que se sustentam devido à quase autossuficiência comercial que pairava sobre aquela vizinhança, como se um manto de prosperidade tivesse se instaurado ali, a despeito de explicações lógicas e a favor da felicidade de quem residia naquele pedaço mágico do mundo.

Haviam 27 homens de idades variadas empunhando facas na área logo a frente, e eles não estavam poupando ninguém que passava por ali de sua violência, tão imensa quanto as intenções dos que amam ou o desespero de quem não o faz. A cena era bizarra, porque eles não praticavam sequer o esforço de correr atrás de suas vítimas, preferindo, ao invés disso, que elas viessem a eles enquanto sorriam descompromissadamente. O sol se escondeu atrás das nuvens para não presenciar aquele fato tão estranho e, em decorrência disso, o lugar passou a emanar uma energia de medo, ansiedade e principalmente histeria, curiosamente silenciosa. Todo mundo que estava ao lado da moça precisava passar para lá, mas o preço para que isso acontecesse estava bastante claro e não era nada justo. A ameaça era evidente e todo mundo ia ter que sangrar para atingir aquele objetivo. O que sempre pareceu simples havia agora se tornado inalcançável, e uma força estranha impelia ao fracasso todos que ousavam tentar o sucesso naquela empreitada.

Ela congelou. Viu uma senhora de 60 anos ser esfaqueada por entre as costelas do lado esquerdo do corpo e resolveu ligar para os amigos, já que lhe ocorreu que a mera presença deles resolveria a situação. Parecia óbvio que eles saberiam como tirá-la daquela, como já souberam outras vezes em outras circunstâncias, e como haveriam de saber em tantas outras no futuro.

Mas a tremedeira nas mãos a impedia de acertar as teclas do número desejado no telefone. Resolveu desafiar o bom senso e começou a correr para lá, tentando se esquivar dos possíveis algozes como podia, num grande jogo de damas, já que a relação entre o jogo de xadrez e a morte já foi uma analogia melhor explorada em outras situações. Não foi atingida, mas quando chegou à última linha de seus potenciais assassinos, não teve forças para finalmente passar para a área segura que eles escondiam por detrás de olhares hipnóticos e determinados. Voltou ao ponto de partida, ainda muito nervosa. Encarou os homens mais uma vez.

Acordou e se viu flagrando formas ambulantes pelo quarto.

Aquelas paredes já somam mais de 50 anos de idade, e nunca haviam parecido tão ameaçadoras quanto pareceram naquela madrugada. As cortinas azuis escondiam uma noite enorme do lado de fora, e um inegável espírito de desamparo do lado de dentro. Ela voltou a dormir, depois de certo esforço. Jamais compreenderá plenamente o que se passou naqueles momentos eternos dentro do universo paralelo em que os sonhos existem e nos acontecem.

 

Marco Antonio.

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Escala de Baumé 0 5029

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 6533

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai