Oh, o seu time campeão, sua escola na avenida 0 698

Foi bom que ela tenha morrido no começo do mês, porque aí pudemos depositar algum dinheiro numa conta de banco de um dos membros da família dela, o que pode não ter gerado conforto nenhum, mas claro que ajudou. Veja, querida, você sabe disso melhor que eu mas não custa repetir: toda ajuda nessa hora é válida, ainda que ela seja exclusivamente financeira.

O dinheiro não foi muito. Coisa em torno de R$ 300. Não pude me dar o luxo de fugir do meu orçamento mensal dessa vez (a viagem de férias e a classe média: tema pra uma outra hora menos triste), e é por isso, suponho, que fogões e geladeiras são feitos para durar pelo menos mais de um mês, assim como carros e televisões. E já que falo de suposições digo mais. Acredito que esses produtos poderiam durar mais tempo, talvez vidas inteiras, mas isso é especulação somada à uma vontade boba e pessoal. A propósito, um dos meus casais de avós gostava de falar sobre a “eternidade” do amor deles, como se existisse mesmo sentimento que resista a tudo, sem guardar relação qualquer com as conveniências da vida, ou sem que esteja influenciado pelas ondas que ela propaga e é. Nunca acreditei neles quando falavam disso, mas não costumo acreditar nas palavras de muitas pessoas. Pelas pessoas e pelas palavras, que valem menos que as pessoas e menos que dinheiro, e menos até que o conforto de sentar numa boa poltrona, ainda que você sente numa delas para ler palavras num livro ou numa revista ou num almanaque ou num site, ou para ouvir palavras numa conversa com alguém de que gosta.

O que importa é que estou sempre atento às palavras, mas estou ainda mais atento ao fato de que elas não valem muito, se é que chegam a valer alguma coisa em alguma instância da sensatez. Aliás, sensatez é uma bela palavra, não?! Não sei. Eu acho. E prefiro a palavra ao ato.

Funerais custam caro. Já viu? Sim, pois se as empresas funerárias fazem, na verdade, um dos trabalhos do diabo sobre a terra, nada mais justo que cobrar muito por isso. Não deve ser fácil viver cada hora maldita tendo que se reportar ao inferno. Cada um dos minutos deve ser difícil. Cada um dos segundos, e até os intervalos entre eles. Em alguns momentos, sempre tão fugidios quanto o vento, deve ser insuportável trabalhar nesse negócio.

Ninguém paga uma empresa funerária para cavar um buraco, tapá-lo ou para escolher flores adequadas, nem nada disso. Paga-se pelo tempo dos profissionais da obra. Poucos querem se preocupar com a morte num tempo como o nosso, tão feliz, esperançoso e tão cheio de palavras que acalentam os corações cansados e enganam os desavisados. As palavras, de novo. E outros funerais, que hão de vir e vão.

Paga-se caro nestes casos, também, por causa de métodos comerciais estranhos que algumas empresas do segmento praticam, mas isso é tema pra outra hora, durante um café, quando desconfiarei de tudo que você disser e espero que você faça o mesmo quanto às minhas palavras. Uma hora de investigação policial dedicada e cuidadosa, empreendida por policiais que tenham bons hábitos de sono e alimentação, e que estejam contentes com os próprios salários e estilos de vida deve resolver o caso das funerárias, mas nós temos muito o que dizer um ao outro sem precisar nos preocupar com esse tipo de tema, mesmo que passemos por ele por acidente em alguma altura da nossa conversa animada e ansiosa.

Quanto a ela, a morta, era isso. O que você acha? Existe mesmo outro lugar além daqui? E pode dizer o que quiser, mesmo que eu duvide.

Não vou te visitar nessa semana. Talvez nem nesse mês, na verdade, mas podemos conversar pra descobrir quando poderemos nos atualizar um sobre as atividades do outro. Inventemos um dia fatídico e feliz para nós, afinal.

Saudades de você – mas não devia admitir, acho.

Do seu (com medo da formalidade excessiva, pelo momento pesado demais pros meus ombros tão cansados de carregar o peso do mundo e das dores).

Daniel.

Marco Antonio,

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Escala de Baumé 0 2195

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3456

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai