About a girl 0 616

por Teresa

Não, espera, não vai embora ainda. Eu sei que tá frio. Também preciso de um café. Se eu passar um café, você promete esperar? Tá aqui. Forte demais? Droga, errei na dose, como sempre. Mas bebe que vai te fazer bem. É, também acho que deveríamos ter bebido menos ontem. Também preciso de um banho. Mas fica mais um pouco. O tempo é curto e tenho uma porção de coisas pra te falar. Claro que eu lembro do que aconteceu. Jamais, jamais te pediria algo que você não pudesse dar. Pode colocar a música que você quiser. Ainda tenho créditos, sim, pode mandar tuas mensagens. Mas me escuta, por favor? A vida tem sido uma mentira sem você. Desculpa, errei na dose de novo? É que é horrível te ter aqui tão perto e ter que controlar as palavras. Não consigo fingir na tua presença. E isso pesa tanto! Me mostra menos verdade pra eu poder acreditar de volta nas tantas mentiras! Queria ter te conhecido 10 anos depois. Me perdoa pela imaturidade, por não ter lutado. Uma vez me apaixonei. Faz muito tempo. Aquilo parecia salvação pela profundidade que oferecia. Mas sabe qual era meu terror? Cada vez que eu me aproximava daquele rosto, via o teu. Imediatamente chacoalhava a cabeça pra evitar a comparação. Mas era inevitável. Não consegui me entregar. Aquele ser humano disposto, presente, eu não conseguia decifrar, ir a fundo. Sobre meu desprezo? Não há desprezo. Só tenho medo de te ver morrer diante dos meus olhos. Ainda esses dias lembrei do teu quarto pequeno, de paredes roxas. Quantas horas ali dentro esperando o dia acabar? Quantos discos, quantos filmes, quantos segredos? Você não precisa de perfume. Isso diz muito sobre alguém. Ah, sim, tudo bem. Pode ir. Boa viagem. Quando puder, mande notícias.

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Distante das Linhas de Nazca 0 1053

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 882

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski