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Distante das Linhas de Nazca 0 968

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Escala de Beaufort 6 792

A calma já não pertence mais ao vento. O ímpeto da juventude precisa ser contido. E quando é vontade da natureza, coisas horríveis acontecem.

 

No sofá da sala, mantenho a tevê desligada. Mais uma vez estou hipnotizado pelos ponteiros do relógio da parede. Não sei quanto tempo já perdi fazendo isso. O curioso é pensar que existe a hipótese de se calcular algo tão inútil. Segundos, minutos, horas, dias, milênios. Gramas, litros, metros, decibéis, pontos na carteira. Quase tudo dá para calcular. E eu não quero saber de quase nada.

 

Às vezes fico pensando em medidas para coisas que ainda não calculamos. Como nossa vivência. É muito pobre usar como base apenas os anos vividos, e os ponteiros do relógio hão de concordar comigo. Calculo minha vivência em fotografias mentais de lugares em que estive. Em especial os lugares altos. A imensidão verde que o Pico da Neblina me apresentou. A primeira vez em que vi as nuvens de cima para baixo. A cidade e todos os seus carros vistos do trigésimo andar, na minha sexta entrevista de emprego. A vista que a gente tinha do nosso apartamento. Nem era tão alto, mas era linda, pelo que me lembro.

 

Oitavo andar, último andar do único prédio da quadra. Todo vento encanava justo ali. E a gente sempre brincava que ele chiava o seu nome. Vi passar toda minha vida que nunca existiu naquele lugar. Vivi todos os planos que a gente fez, e só fez. Ainda não descobriram também, como se calcula o tamanho de uma saudade. Não gosto de pensar nisso, nem de pensar em você. Tanto quanto gosto da vista do meu novo apartamento, no décimo quinto andar, de frente para outro prédio.

 

Uma tempestade se aproxima, não quero fechar a janela. Antes de chover, sempre venta muito. E o vento sempre sussurra o seu nome.

 

Gabriel Protski