Desdente 0 606

por Rafael

Hoje foi um dia como outro qualquer, onde nada aconteceu. Mais uma vez o calor está insuportável. Um calor exagerado, demais pra mim. Talvez amanhã chova e todos sejamos levados embora pela água. Talvez amanhã eu possa contar a alguém sobre o calor ao qual sobrevivi.

São muitos talvezes para um único amanhã, mas ninguém se importa. Talvez amanhã eu esteja mais forte.

Eram três e meia da tarde, mais ou menos, e o calor me venceu. Me vi obrigado a parar à sombra de uma árvore qualquer da praça da catedral. Todos parecem esgotados e entediados em um dia como o de hoje, onde o calor afoga todas as possíveis vozes.

Ao pé da árvore, um homem qualquer. Daqueles que são capazes de atravessar uma vida inteira sem que sejam notados. Cochila. Um sono sincero. Cochila um sono sincero sentado sobre sua vida inteira que coubera em uma única mala. Sua boca aberta mostra ao mundo todos os dentes que lhe faltam. O mundo, uma vez mais, ignorou. Ao lado, deitada, sua companheira das últimas horas, ainda cheia pela metade. Algo em torno de meio litro de conforto ou desilusão.

Uma praça sem um chafariz no centro. Onde já se viu? Uma praça assim faz tanto sentido quanto amantes que julgam terem feito amor na noite anterior, ignorando o fato de que o amor já estava feito muito antes da sua trepada.

A praça desdentada me abraçou. Um abraço duro, incômodo, me fez enjoado, tornou o sol escuro. A luz que queimava a todos era a mesma que insistia em me apagar.

Todas aquelas pessoas vazias, que passavam, que iam e voltavam por não conseguirem estar. Apenas eu ficava, tão invisível quanto a boca sem dentes.

No centro, onde deveria existir um chafariz, um carrinho de sorvete e seu vendedor sem rosto. Logo aparece uma mãe com seu filho, que se lambuzará todo com um picolé de fruta. Uma criança com a cara lambuzada de sorvete. Existe algo mais sincero?

Tiro minhas botas e sinto as meias encharcadas de um suor que não me refresca. Tenho os dedos dormentes. Quem precisa de calçados e calças tão quentes em um dia como o de hoje?

O suor que brota em minha testa é o mesmo que escorre pelas minhas pernas. A boca seca como nunca antes. Me faltam as águas que jorram do meu corpo.

Um pássaro caga em meu ombro direito. Olho e não lhe encontro. Sequer posso lhe xingar, pois sei que este não é o meu lugar. Minha passagem é com pressa, não me posso demorar.

Os sons se misturam. Nada é estático. Carros frenéticos correm sem ter onde chegar. Alto falantes berram os nomes dos próximos vereadores. E eu, vencido pelo calor, não tenho nada além da sombra de uma árvore qualquer.

Já não sei que horas são, o sol continua a me queimar com sua luz ainda negra. As pessoas continuam vazias, e a única coisa que sinto, além do cansaço, é essa merda no meu ombro direito.
Não permita Deus, que eu morra em um dia como o de hoje, onde nada aconteceu.

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Dai-me Amor 0 2333

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 2585

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”