Como quem já sofreu o bastante na vida 0 635

Participação mais que especial da nossa cofundadora Marcela Requião

 

Como quem já sofreu o bastante na vida, chegou.

E sem pedir nada, ganhou muito mais do que jamais teve.

Ao ser convidada a entrar, acanhou-se e chorou. Brincadeiras não fazem parte de seu dia-adia há muito tempo e a risada dos outros lhe causa estranheza, um incômodo que começa a se transformar em conforto.

Este conforto. Uma blusa esquecida, uma cama quentinha, e, agora, um convite para entrar.

Assim como outros em sua presença, não soube como reagir. Mas passou a observar, a aconchegar-se num espaço que não era seu e esperar por aqueles em quem não confiava.

Simples gestos assustadores mudaram de significado.

E diante de briga recua, mas manifesta a inusitada reação de bater o pé como quem diz “odeio quando fazem isso comigo”. E surpresa: hoje ela pode falar.

Não mais fugir. Não mais se submeter por medo. Entendeu que isto nada tem a ver com respeito. Ainda menos com amor.

Fica. Primeiro em corpo e agora em olhar.

Em uma casa ocupada é mais uma. E onde precisavam de calma, trouxe gentileza. Sem saber que este era o recôndito segredo dos que ali habitavam, a transmite com tanta docilidade, que jamais deixará de ali pertencer.

A Dora (nada) Aventureira passou a ser aDorada. Minha Dora dourada.

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a mente enquanto objeto quebradiço 0 1703

I

 

a noite aqui fora tá um pouco opressiva, graças ao bafo úmido que levanta do asfalto depois dessas chuvas de verão. passa pouco das oito da noite e eu mando um zap pra Cíntia, ver se ela precisa de algo em casa. “Traz um pão de azeite de oliva pra mim”, ela pede num áudio. quase envio uma mensagem perguntando onde encontrar um negócio tão específico, mas assim que olho pra frente me deparo com um local metido a besta, o típico estabelecimento que venderia pão de azeite de oliva. nunca vi esse prédio. entro, o lugar é descolado, projetado pra ricos moderninhos. uma espécie de galpão abandonado, de pé direito alto e arquitetura estranha, com várias lojas e restaurantes que ficam nas paredes, pelas quais o cliente passeia usando rampas. roupas, massas, eletrônicos, brinquedos artesanais. tipo um shopping pra quem quer se sentir integrado à região mas sem correr riscos.

um conjunto formado por vozes masculinas e femininas, flautas e percussões está distribuida ao longo do térreo e toca uma música em tom menor, bem bonita, lindíssima. é emocionante. choro um pouquinho e sinto uma vontade inexplicável de comprar romãs. peço por romãs, não as encontro, mas de rolê pelo galpão sou abordado por uma senhora, sentada num café afetado. “Psiu. Você quer romãs? Eu sei onde tem”, ela fala, feito gato, e me estica um cartão pessoal com nome que nem leio. “Lá perto de casa as romãzeiras estão carregadíssimas”, mia. sorri.

 

II

 

quando noto, estou descendo de um carro. percurso curto, que rua é essa? a velha me convence a entrar na casa porque precisa avisar qualquer coisa pra filha antes de me mostrar onde acho romãs. ela tem um desenho excêntrico, me deixa confuso, como se um sorrisinho malicioso estivesse grudado pra sempre em um rosto antigo e marcado por muitas mudanças. o cabelo platinado, quase branco. ela começa a falar estranho comigo, “Nossa, você é muito lindinho”, pergunta meu nome, respondo “Paulo. Paulo Braga”. meu nome não é Paulo e meu sobrenome não é Braga e eu não entendo mais o que estou fazendo. a senhora me pede licença e sai do cômodo e nisso a filha entra. igual, mas o cabelo é preto e o rosto é jovem. começa a fazer perguntas inúteis, ela também fala miando. “De onde você é?”, questiona, respondo “Minas”, mas eu não sou de Minas. “Ai, que fofo! Que bom que você vai vir pra cá, passar sotaque pra minha mãe”.

vir pra cá? passar sotaque? do que essa moça tá falando? explico que na verdade sou gaúcho, de Pelotas, e nada muda na dinâmica da conversa. tento me distrair pensando em quando vou finalmente comer as romãs, mas o cômodo tem um ar estranho, um perfume me sufoca e confunde. enquanto a jovem mia bobagens e amenidades, tiro o celular do bolso e jogo no Google o nome da coroa, que copiei do cartão. nome diferente, nunca li nada assim. “Que línguas você fala?”, ela, “Inglês e espanhol”, eu, “Ótimo, mamãe fala muitas outras, já podem viajar bastante”. o clima não tá legal, eu não quero viajar com ninguém, eu fico tenso, o 4G não funciona direito. “Mamãe teve vários homens mas nenhum nunca deu certo. Acho que nenhum estava realmente pronto, sabe? E sempre acabam sumindo, hehe”.

 

III

 

fito a tela. a busca está completa. leio os resultados.

 

travo.

congelo.

 

IV

 

reúno forças e levanto e percebo a velha de volta ao quarto. sorrisinho, vestido e véu vermelho-sangue, quase flutua. penso em correr, mas um miado calmo soa como se viesse por toda parte, formando palavras que mais soam como portas que se fecham.

 

“Aonde é que você pensa que vai? Você fica. Você não vai a lugar nenhum”.

 

 

 

 

 

texto do Rômulo Candal

visual do Marco Antonio

Voz 0 1103

Hoje, cheguei em casa e tive que permanecer no escuro por uma hora ouvindo música alta, na intenção de fazer minha mente mudar de velocidade, de assunto e de fugir dos pensamentos rotineiros. Foram dez aulas, volto pra casa e continuo ouvindo as vozes… ”Professora isso… Professora aquilo”. É um ritmo frenético, vivo. Participar da rotina de tantos alunos com faixas etárias tão diferentes anda me consumindo.

No começo foi legal, a curiosidade é combustível pra minha mente. Eu já sabia que escolher seguir o caminho da licenciatura me obrigaria a driblar o salário ruim, a falta de amparo do estado, as salas lotadas de alunos que precisam de um tratamento diferenciado e inclusivo, pais que dão mais trabalho que os filhos, a ignorância massificada, os celulares fora de hora e, é claro: a constante falta de interesse e de vontade em obter conhecimento por parte dos alunos. Em 50 minutos você precisa dar conta da burocracia escolar, do conteúdo acadêmico, inspirando, mediando essas informações de maneira que a aprendizagem aconteça em uma sala de 30 ou 50 alunos, que não prestam atenção ao mesmo tempo. O que se ganha em troca? Uma cirurgia nas cordas vocais para ser marcada em um sábado de manhã. Minha voz está desaparecendo. Parece assustador e realmente é. Pra que sofrer tanto nesse teatro educativo do sistema? O trabalho levado com seriedade desaparece, já não o vejo mais.

 

Hoje, limpando as mesas da sala de Artes, me vi como uma garçonete. A cada toque do sinal, trocam as turmas, os alunos se acomodam nas mesas para oito pessoas e ali ficam levantando a mão e fazendo pedidos, sejam explicações ou materiais para a realização das atividades. O sinal bate novamente, antes de a outra turma chegar, já limpei todas as mesas. Pela primeira vez nesses três anos, me perguntei, “o que estou fazendo aqui?”

 

E as vozes não param e já não penso mais com a minha voz, penso com a voz dos alunos que ficam me chamando e, às vezes, escuto tão alto na mente que acho que estou ficando louca e, quem sabe, esse seja um pré-requisito pra se aventurar pelos caminhos da realidade da educação brasileira.

 

Ali no escuro, quando cheguei em casa, esses pensamentos foram se dissipando e cada vez mais minha mente era preenchida pela música. Precisei respirar fundo incontáveis vezes, mas sem sucesso, não me senti viva. Permaneci ali e perdi a noção de tempo e espaço. De repente me percebi dançando no escuro, imaginava aquele menino barbudo, aquele que sempre toma muito cuidado com as palavras, meu tipo preferido de gente, sempre invejei quem sabe o que fala. Barbinha bonita, quis sentir mais de perto. De olhos fechados visualizo tudo. Percebo-me ali, egoísta de novo. Envergonho-me. Fervo. Continuo respirando. Eu tento não ouvir as vozes, eu quero silêncio, as vozes estão cada vez mais fracas, ainda não consigo ouvir minha voz, penso na cirurgia. Se os três primeiros anos foram assim, imaginem os próximos 22! Não. Volta a imagem do menino barbudo, me olhando aquela vez no elevador. Na liberdade da minha imaginação, dessa vez, ele usa gravata-borboleta e, quando nos despedimos, no abraço… isso! Congelei ali.


Às vezes acontece assim, os ícones de liberdade que criamos com toda essa massa disforme que chamamos de novela humana. Em 1830, a liberdade é ilustrada pela mulher despida guiando o povo. Em outras épocas é o menino de barba no elevador. Maldito escapismo de merda, malditas crises, viva a revolução. Viva o silêncio, as vozes quase nem ouço, hora de planejar as aulas de amanhã. Ascendo luz e penso nas férias. Não, ainda falta tempo, esses duzentos dias letivos são intermináveis, lá pelo dia cem, você já não suporta ouvir as mesmas vozes falando cada vez mais alto, enquanto sua própria voz já se foi, já nem é mais ouvida. Se eu mesma não consigo ouvir, imagine os outros? Me imagino como um palhaço em frente à classe. Não estou sentindo vocação para esse teatro ridículo. No começo achava que era mais. Anoto na agenda a rotina de amanhã, o pensamento que me conforta é que vai acabar rápido. Ultimamente esse pensamento tem se mostrado cada vez mais fraco. Meu corpo e minha mente querem silêncio.

 

Texto: Livro dos Novos III, 2016. Ilustração: Nó nas cordas vocais, 2017. Caroline Rehbein