Lágrima 0 636

por Rafael

Sonhei que estava em uma biblioteca enorme com você. Era em Curitiba mesmo, acho. Lá estariam todos os livros que não lemos, mas que estivemos neles, de alguma maneira.

Lembro que em algum momento nos separamos, pois eu precisava encontrar o livro da minha vida. Algo que vinha buscando há tempos.

Você ficou, pois sabia onde estava o que procurava.

Eu desci, subi escadas e cheguei a um campo aberto. Veja só!, uma biblioteca com prateleiras sob o céu, que poderia chover e anoitecer sem perigo de comprometer todas aquelas infinitas páginas. Estranhei, mas logo compreendi que para desintegrar algumas páginas de nossos livros seriam necessários mais do que umidades e sopros sem endereços certos.

Segui pelos corredores, que eram desertos, mas sentia a companhia dos fantasmas que habitavam aquelas imponentes páginas ao meu redor.

Me maravilha essa nossa capacidade de escutar o silêncio.

Enquanto observava todos aqueles livros, sem diferenciar um do outro, me lembrava de capítulos pelos quais passamos. Vivíamos como estas páginas, tão bem escritas. Queria eu ter a capacidade de viver com tanta habilidade quanto aquelas linhas, tão retas, indestrutíveis diante da ação do quando e do onde.

Deixamos de viver nossos capítulos, pois ainda  era cedo para fazer algo, e agora esperamos um quando que seja tarde demais.

Nosso único esforço é esperar.

Esqueça esse relógio. Nosso tempo só existe fora deste quando. Quase sempre.

Entre as prateleiras ao vento, passei a me sentir vulnerável e  já começava a ir embora a partir de meus dedos.

Quando percebi, braços e pernas esparramavam-se pelo ar, junto às folhas secas de algumas árvores próximas. Como podem estas páginas empoeiradas (de outros restos) nas prateleiras serem imunes ao tempo?

Corri de volta até você, para dizer o que havia encontrado, ou para encontrar.

As prateleiras pareciam se mover, me colocando em um labirinto onde seria meu próprio Minotauro.

O vento uivava e minha roupa agitava feito bandeira ao meu redor.

Subi, desci escadas e te encontrei sentada ao fundo de uma enorme sala abarrotada de livros. Sobre uma pequena cadeira, folheava as páginas da sua própria vida. Só então pude perceber que não havia me encontrado.

Tentei voltar e percebi que o vento já havia me levado, um tanto para cada lado, à deriva em um mar invisível, onde sequer me afogaria.

Me afligem os silêncios que atormentam com a certeza de que jamais consegui conduzir a minha vida como as linhas daqueles tão-nossos-livros.

Morria tão lentamente, camada a camada, que sequer percebi. Talvez até tenha desejado acelerar o tempo que ainda estaria por vir. Corroí. Me entreguei ao vento.

Agora aqui, diante destas linhas, tão mais retas que meus dias, me sinto esgotado ao revisitar estas lembranças que me chegam em pedaços desconectados, que não me deixam estar em um só lugar.

É como tivesse vivido pequenas mortes cotidianas. Me nego a perceber o pouco a pouco como morri.

Ao lembrar do sonho, sinto reanimar a fina casca que bate e faz eco-no-oco-do-meu-peito. Os olhos reagem, mas seguro. Seguro porque só acredito em minhas lágrimas enquanto não as choro.

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Impressões Sinestésicas de Um Entusiasta 0 2174

This Will Destroy You

Another Language | Cinderella 99

Há um sussurro quase inaudível, penetrando por debaixo da porta e passando pelas pequenas frestas na janela, carrega uma mensagem codificada de algum lugar distante, em um tom suavemente sedutor; estimula os olhos a enxergarem longe, principalmente se fechados. A esperança, natural aos novos fenômenos, abre um pequeno portal em minha frente: não enxergo nada além de sua profundidade, e, já é tarde demais para escolher não progredir através desse vórtice. A renúncia à paz, que se faz presente em toda nova empreitada ao desconhecido, sequestra-me e me lança em direção ao que nem sabia que procurava; decodifico o início da mensagem e a revelação é clara: estou prestes a descobrir um novo idioma.

 

Sou devolvido ao lugar onde comecei e não sou mais o mesmo, uma força que transmite uma paz inquieta mudou tudo de lugar, e, tanto os móveis quanto as sensações agora ocupam posições mais confortáveis. Tento me familiarizar com o novo momento, me aproximo de sentimentos que sempre me foram íntimos e os descubro restaurados, há uma nova vibração emanando em torno de mim, cada vez mais tátil; já não sei se a levo comigo ou se sou carregado por ela.

 

Viajo num mundo confortavelmente desabitado, me sinto pleno em minha solidão, contemplo o deserto em quase todo o horizonte; vejo apenas uma montanha, distante, que calmamente vem em minha direção. O chão vibra com ternura conforme o espaço entre nós diminui. Cordial, ela se abaixa para eu enxergar o que carrega em seu topo; atinjo seu ápice, e uma pequena interferência me leva para onde as nuvens nublam suavemente a visão. Viro para o outro lado, observo um abismo, que me contempla de volta. Desço como quem flutua, mas sei que o caminho reserva novas surpresas; sinto a pulsação do vento mudar, enchendo as nuvens de eletricidade enquanto algumas delas se acendem, gerando pequenas explosões que iluminam o caminho.

 

A luz que dá impressão de rarear muda de cor, assume uma dramaticidade rubra, com sombras demarcadas. Sou envolto em uma tensão que não transmite temor, necessária para a dissolução de antigos reinos. É parte da história que nos contam desde que nascemos, é objeto, mas nem por isso é obstáculo. Quando a tensão se dissolve, o chão volta a ser plano, a energia que passa a me envolver parece ter surgido de dentro para fora. Uma paz, que por mais curta que seja, traz a ideia do eterno. Para chegar mais longe, alguns passos tentam nos guiar até nossos ancestrais; somam-se a mim forças reunidas de outros tempos, calor de partículas que o cotidiano insiste em esfriar. A percepção de sua existência me convida para lugares onde se desmaterializa tudo que criei, me conforto em esquecer o que não preciso carregar.

 

Docemente, os sons começam a se esvair pelo quarto, e já não me preocupo mais em impedir que se escapem pelas frestas, volto para um lugar análogo de onde eu era, repleto de novas perspectivas. Me conforta a comprovação de que ainda vou me interessar por tanta coisa que desconheço. Trago a paz que as boas viagens nos reservam ao voltar para casa, com a convicção de que tudo é linguagem e nada é apenas ruído.

thiswilldestroyyou.bandcamp.com/album/another-language

Navegador de sonhos 0 3390

O começo do sempre foi com muita chuva, em um porão escuro onde sua pele brilhava e seus olhos ardiam, pedindo que fossem fechados para dar passagem aos sonhos que abriríamos juntos. Não era exatamente o que se imagina para esse tipo de história, que merece uma noite de verão com o céu limpo, estrelas brilhantes e lua cheia, mas os sonhos são feitos mais de sentimentos sinceros do que de cenários bonitos.

Conheci a Laura ao mesmo tempo em que descobri o amor. Sem fazer planos, acabei sendo apresentado a mim mesmo, em uma espiral de autoconhecimento levado pela sua mão com doçura. Com ela pude ser eu, e esse é provavelmente um dos melhores presentes que se pode receber de alguém. Juntos, começamos uma vida de aventuras para dentro de nós mesmos, desbravando essa loucura que é sonhar.

À noite nosso quarto tem som de mar. Uma poesia colorida em meio a tanto cinza. Faz com que o navegar pela cama enorme seja leve, e cada encontrar do outro traga a alegria de atracar em um porto seguro. A Laura sempre foi o meu refúgio, e isso deve ter alguma coisa a ver com aquecimento global porque eu sempre fui quente, e ela, sempre o meu mundo. Juntos, pulávamos entre calotas polares, aquecendo nossos pés e criando novas formas de vida. De viver. De sonhar. De ser. Juntos, éramos.

A Laura me apanhou pelo estômago. Não com a comida, mas com o comichão. Minha voz fraquejava um pouquinho a cada vez que, tenso, ligava para chamá-la ao cinema, ao bar, e depois quando lhe propus criarmos nosso próprio lar. O fraquejar sempre me foi uma bússola que apontava a direção do sonho. E sempre me levou até ela, em qualquer lugar ou fuso do mundo. Fraquejando, sonhei com o sempre. Em uma noite com muita chuva, remei para o sonho.