Soliloque 0 700

 

Tem essa porrada de coisas que fazem sucesso mas não fazem sentido, tipo pagar pra entrar num bar e depois ter que pagar dez pila numa porra de um chopp de trezentos ml. Será que lavei a louça antes de sair de casa? Que seja. A casa é minha. As visitas que aprendam a lidar com o jeito que eu organizo as minhas coisas. Se eu chegar atrasada no trabalho de volta… Não tenho nem mais desculpa, nem cara pra isso. Ah. Se for o caso também, não dou desculpa nenhuma, sento lá e nem falo nada. Nem dou bom dia pra ninguém. Numa dessas é melhor. Será que se eles pensarem que tô com algum problema sério em casa não me perguntam nada? Deve ser por aí. Que seja, também. Acho que lavei a louça sim. Ai, Pedro, pra que apertar tanto minha mão, porra? E eu lá sou criança pra precisar segurar minha mão pra atravessar a rua? Ainda bem que você não sabe o quanto eu te amo. É meio foda admitir. É mais saudável falar a verdade, mas é mais difícil, então sei lá. Assim tá bom. Assim tá legal. Assim me sinto bem. Será que peço ele em casamento agora? Ai, com esse frio na barriga não consigo nem falar. Tá foda respirar. Tipo “your gut sinks each time you see her”, do Defeater, mas com “him” no final. O Converge é melhor que o Defeater. “Phoenix in flames” é melhor que qualquer coisa que o Defeater fez ou vai fazer. “Sadness Come Home” também. O La Dispute é meio diferente dos dois. O Touché Amore também. O Every Time I Die é bom desde o nome. O Leathermouth também é maneiro, é moleque. O Nails não tem nada a ver com nenhum deles, mas é sinistrão. O Cavalera Conspiracy também. O Alceu Valença e o João Gilberto são melhores que todos esses. O Wes Anderson é melhor que o Paul Thomas Anderson? Nem fodendo. O Caetano Veloso é melhor que o Chico Buarque? Sei lá. Não é competição. Ai, Pedro. Solta. Não tenho coragem de soltar de novo. Vai ser a …quart…quinta vez que eu vou soltar a mão dele em menos de duas quadras. Na cabeça dele deve fazer sentido segurar minha mão assim. Deve estar fazendo bem pra ele. Pra alguém tem que fazer. Vou deixar…”a vida me levar”. E o Jota Quest é melhor que o Skank? Ah. Sei lá. Eu nunca sei. Eu sei, mas não vou admitir. Pensar é bizarro. Pensar é uma merda, mas falar é pior. Ouvir é legal. Vou pedir ele em casamento. Não consigo. Eu devia. Ele merece. Eu quero. Eu mereço. Sei lá.

 

– Pedro, quer almoçar no shopping, mais tarde?

 

– Sei lá. Num dá pra ser em outro lugar?…eu não curto muito shopping.

 

– Ah, é. Real.

 

– É…só gente imbecil gosta de shopping. Escada-rolante, luz branca…

 

– Luz branca tipo de morte…rá rá…

 

– É…aquela merda toda lá…loja, loja, loja…

 

– Nah, mas pode ser em qualquer outro lugar. Eu só quero almoçar com você. Você me liga umas 11 e meia?

 

– Ligo. Vou tar por aqui umas 11 e pouquinho. Te ligo sim. Deixa o telefone perto hoje, tá?

 

– Tá.

 

– Tchau.

 

– Beijão. Vai bem.

 

– Também. Te amo.

– Rá rá. Vem de novo com essa que você tá fodido…rá rá.

 

 

 

Marco Antonio Santos

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A maldição de Marigol 0 1201

Não demorou para que Mariel virasse Marigol entre os torcedores do Tricolor da capital. Quando ele apareceu, contratado como destaque em algum clube pequeno do campeonato estadual gaúcho, o time vinha jogando bem e criava muitas oportunidades no Brasileirão, mas a bola não entrava de jeito nenhum. Marigol tratou de suprir a necessidade: fez logo três gols nos dois jogos em que entrou no segundo tempo, dando a entender que a sina acabara e que o torcedor tinha um novo artilheiro para chamar de seu.

Nunca foi craque – na verdade, tinha até alguma dificuldade nos fundamentos mais básicos do futebol, como domínio de bolas e passes curtos – mas conquistou a Demônios das Três Cores, torcida organizada da agremiação, dando tudo de si em todas as partidas e estando sempre no lugar certo, como se Deus sussurrasse em seu ouvido aonde deveria ficar para empurrar a bola pra dentro das traves, com a parte do corpo que fosse.

Logo ganhou a camisa 9 e a boa fase se consolidou. O time voava e mais três gols decisivos de Marigol em quatro partidas transformaram o Tricolor, que havia recém subido à primeira divisão, em candidato cada vez mais forte a ganhar uma vaga para a Taça Libertadores do próximo ano. Cada partida era como uma nova página na bonita história de amor construída entre atleta e clube. Nos poucos combates em que a bola não entrava, disposição não faltava, e qualquer tentativa de salvar uma saída de bola pela linha lateral era comemorada pela galera.

Tudo vinha bem até o meio do ano. O campeonato nacional foi paralisado por um mês para a realização da Copa das Confederações, que trouxe, com ela, a abertura da janela de transferências e o inevitável desmanche do elenco. Marquinhos, o “Canhota de Ouro” dono da 10, foi negociado com o futebol chinês, e o lateral-direito Tiago Matos – “Diabo Matos”, para os adeptos – foi seduzido por um investidor e partiu para a série B da França.

Com o time desfigurado, a esperança da Demônios das Três Cores tinha nome e apelido: Mariel, o popular Marigol. Mas depois de três jogos após a pausa, as coisas já mudaram bastante de figura. O centroavante ainda metia seus golzinhos, mas recebia menos assistências e a regularidade foi diminuindo. Marcava um tento aqui e outro ali, mas a queda na confiança o levou a perder gols fáceis com uma frequência cada vez maior. O tricolor passou a cair vertiginosamente na tabela, e não tardou para que o sentimento da geral atravessasse a famigerada tênue linha e se transformasse em ódio – os mais maldosos passaram a chamá-lo de MariSemGol.

Numa jornada especialmente triste, na penúltima rodada do campeonato, Marigol conseguiu a façanha de arruinar três excelentes jogadas de ataque no mesmo domingo. A primeira foi um cruzamento açucarado: se ficasse parado, a bola bateria na testa e entraria, mas Marigol tentou um movimento ousado e foi como trocasse a cabeça por um travesseiro fofíssimo, que apenas amorteceu a bola para o goleiro. Na segunda, o 9 recebeu dentro da área, livre de marcação, mas apelou para a ignorância e isolou a bola no terceiro anel do estádio. Já a terceira e mais emblemática foi num contra-ataque em que Mariel ganhou do zagueiro adversário, em um misto de força e velocidade, e saiu cara-a-cara com o goleiro. Ao invés de finalizar fácil, rasteiro e na saída do atleta de luvas, porém, tentou calar os críticos e encobrir o arqueiro com uma cavadinha. Dada a falta do talento, porém, pegou de forma estranhíssima na pelota, que saiu mais fraca do que o planejado e completamente sem direção. A bola fez uma curva bizarra, triscou a trave direita e morreu ainda antes das placas de publicidade na linha de fundo.

O estádio veio abaixo. Nunca se ouviu, naquela região, uma vaia tão sonora – moradores de mais de um bairro de distância relataram uma vibração considerável no chão. No próximo lance, sob o burburinho pesado das arquibancadas, Mariel tropeçou com a bola dominada e ouviu gargalhadas intensas da própria torcida. Ainda no chão, tomado pela ira, desferiu uma bicuda no tornozelo do adversário que lhe tomou a redonda e foi punido com o cartão vermelho. A massa vociferava e Marigol perdeu a cabeça – se levantou do relvado, foi em direção ao setor onde ficava a torcida organizada e baixou o calção, mostrando a todos que infelizmente não utilizava cuecas durante a prática desportiva.

A maioria dos colegas estava ao lado de Marigol, mas o consenso era de que não havia mais clima para o atleta no clube. Logo após o apito final, ainda no vestiário, Dr. Reginaldo, presidente do tricolor à época, foi ter com Mariel. Era aquilo: não tinha mais jeito, rapaz. Aquela fora a gota d’água, e ele precisaria vir rapidamente a público avisar que o jogador não fazia mais parte dos planos da diretoria, ou passaria por frouxo perante a opinião pública. O ex-artilheiro já imaginava e, no fim das contas, sentia mais raiva dos torcedores e injustiça do que arrependimento pelas atitudes. Tinha apenas um último pedido: fazer apenas mais um último treino no gramado daquele palco de algumas glórias e tantas tristezas.

Dr. Reginaldo acatou sem pestanejar, pois guardava ainda bastante simpatia pelo garoto. Na terça-feira seguinte, portanto, Marigol se apresentou como de costume, vestiu o fardamento de treino e foi em direção ao campo. O clima era péssimo e os companheiros o receberam com um silêncio tão desconfortável quanto honesto. Ele quebrou o gelo com alguma piada sobre o fato de que agora estariam livres do futebol dele, todos riram tristemente e se puseram a trabalhar. Errou passes, errou finalizações mas contagiou a todos os colegas com uma alegria que já denotava nostalgia.

Após o treinamento, Mariel se despediu do pessoal e pediu alguns momentos sozinho ao lado das traves onde perdera seus três últimos e fatídicos gols com a camisa tricolor. Passou meia hora – cravada – falando sozinho, sentando, levantando, apontando para os quatro cantos da meta e para o local da arquibancada reservado à Demônios. Conta a lenda que, no momento da despedida derradeira, agradeceu Dr. Reginaldo pela oportunidade e sugeriu, em tom entre piada e profecia, que o clube deveria aposentar para sempre a camisa 9 que vestira naquele campeonato inesquecível.

*

Fala-se muito sobre objetos enterrados e más energias. Os mais céticos atribuem o azar à pressão que a posição carrega nas costas após essa passagem meteórica. Ninguém sabe ao certo que tipo de artimanha Marigol fez por lá, mas já são três anos e uns poucos meses que nenhum atleta trajado com a 9 tricolor consegue converter um mísero golzinho naquele lado do campo. Nem de pênalti.

 

 

texto de Rômulo Candal

ilustração de Nina Zambiassi

melodia, harmonia e o ritmo de mais um dia 0 845

desperta.

bateria com vassourinha, guitarra com chorus. som de cabeçudo. dinâmica, solo de guitarra, solo de contrabaixo, solo de piano, som de fumaça como num bar. quem pôs isso pra tocar?

acorda e olha pros lados, confuso. de onde vem a música? a janela aberta e o vento entrando, faz frio. puxa a coberta até a orelha enquanto se pergunta se tem tempo até acordar. o relógio mostra que são sete, ele só tem mais meia e aproveita. fecha os olhos, não lembra da madrugada, ou não quer lembrar. quem pôs isso pra tocar?

tenta recuperar lembranças. o som é bonito. é elegante, é melancólico. a guitarra é interessante, o instrumentista sabe tocar mas não é chato, não é o que se espera de guitarrista solo. não deve ser guitarrista solo. certamente é uma banda, mas que banda? para quem vai perguntar? quem pôs isso pra tocar?

dormiu sozinho, tem quase certeza. a janela ainda aberta e o vento entrando, segue fazendo frio. um tempo passa. já são sete e quinze, ele só tem mais quinze e aproveita. os acordes enjoados o envolvem, as notas bonitas o carregam. o troço fica mais intenso, haja dissonância!, mas é tanta dinâmica. fraco, forte. vai ligeiro até ralentar. quem pôs isso pra tocar?

a cortina vibra, se estica, bate na testa. desperta de verdade e na verdade já são oito.
 

trabalhar, trabalhar, trabalhar.
 
ninguém pôs nada pra tocar.
 
 

por Rômulo Candal

fotografia: Real Cowboys Drive Cadillacs via Compfight cc