Saudade 0 617

por Rafael

No dia em que a neve caiu em Curitiba, todos se perderam a olhar para o céu, inclusive as distâncias. Não havia estranhos, não havia frio. Todos compartilhavam o breve e hipnotizante momento.

Eram umas sete da manhã, não lembro ao certo, mas eu dormia. Aos poucos despertava do profundo sono num daqueles resgates em que a realidade parece nos puxar de nosso inconsciente. Eram gritos e vivas vindos de todos os lados, cada vez mais próximos. Aos poucos despertei.

Era a neve.

Pelo canto da cortina ao lado da cama, aqui do terceiro andar pude ver os levíssimos flocos, mais leves que o ar, pairando como houvessem escapado de alguma máquina de fazer algodões-doces.

Famílias inteiras corriam, desciam, subiam escadas, tiravam fotos. Crianças-com-caras-de-sono aprendiam que era extremamente empolgante ver a neve apesar do vento gelado.

Ninguém se importava com o frio. Todas as janelas dos apartamentos aqui em frente estavam abertas. De nome, não saberia apontar nenhum vizinho, mas todos extremamente sorridentes com as mãos para fora na esperança de pegar um floco que fosse.

A vizinha da janela da frente pela primeira vez me deu bom dia. Provavelmente ela já tenha me visto antes, devido à minha despreocupação em fechar a cortina do quarto. Deve saber das minhas manias e companhias. Confesso que já tentei vigiar a intimidade dela, mas sua cortina está sempre fechada. A não ser que neve.

No apartamento de cima, uma senhora de cabeça branca se apoia no parapeito, com os vidros fechados, com um olhar perdido, impossível saber aonde chega. A eternidade daquele olhar ainda me intriga. Um contentamento contido. Estéril e apático, como quem nasceu para ser-só.

Impossível descrevê-lo sem elementos daquela história por detrás da janela.

Essa nossa necessidade de compreender o outro me parece com nossos esforços em definir o desconhecido. Assim como chamamos de mar o que no fundo é apenas a sua superfície, apenas o que vemos. Tão passível da ação dos ventos.

Nunca mais vi alguém naquela janela. As cortinas sempre fechadas, dia e noite, me remetem sempre àquela manhã. Há dias em que fecho os olhos e sinto aquela sensação novamente. A vontade de compreender o que a velhinha via. Sei que minha projeção é vã. Sei que a realidade às vezes é apenas algo do nosso desejo.

Nessa madrugada fria de hoje, não tão gelada quanto aquela manhã, olho as mesmas janelas todas-apagadas-de-cortinas-fechadas e sinto uma saudade.

Saudade da cumplicidade que nunca mais tive por aqui. Mudo o foco do meu olhar e me enxergo no reflexo do vidro. Atrás de mim, um quarto como nunca antes bagunçado, que me engole mais e mais.

Sinto meu corpo preenchido por uma melancolia de tempos que não saberia precisar. Um preenchimento que nada-diz.

“A melancolia é um sorriso triste. Ainda assim, um sorriso”. Já não lembro onde foi parar o pedaço de papel engordurado em que escrevi, mas é algo que me conforta ainda hoje. Um conforto que me permite ignorar o mundo de dores que nos espreita além das nossas janelas. Assim como ignoro o fato de que adoramos um céu com estrelas de outras eras.

A tal da neve em Curitiba durou poucos minutos. Alguns sabedores vieram com seus saberes a dizer que aquilo não era neve, mas chuva congelada. Não sei.

Logo a neve e aquilo tudo passaram. Pouco a pouco todos baixaram seus olhares e voltaram a seus cotidianos cinzas engrenados até hoje, com pequenos lapsos de cores, quase sempre invisíveis para nossos olhos tão pequenos e apressados.

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Alvoradas 0 1731

desentristecer
é iluminar a alma
como renascer

algo que insiste
que conduz
do triste
ao tecer

é persistir
na felici

No instante em que o sol se depositava feito moeda no dourado do mar, Pérsio estancou seus versos. Sabia que letras teriam força alguma para lhe conduzir para além do esquecimento.

Talhara em si um emaranhado de signos para forjar a própria memória. Diluiu-se em palavras-dispersas e estava só. Era agora um infinito de páginas inacabadas, abrigadas num todo que era nada. Uma luz vista por ninguém.

Mergulhado na escuridão, baixou o olhar até doer. Via ausência em si. Mesmo diante do mais límpido espelho encontraria cumplicidade alguma. Tudo era noite.

Sem seus versos, Pérsio era lágrima que escorre só, que seca com vestígio algum. Feito nunca existido.

Feito esperança, buscou lembranças de luz. Como as registradas por relógios de sol, que ignoram momentos menores. Tinha para si que, para a felicidade, palavra alguma seria necessária. Que é na plenitude do silêncio que as verdades se eternizam em nossas almas e nos conduzem às alvoradas de si.

 

texto: Rafael Antunes
ilustração: Nina Zambiassi

O Terceiro 0 1040

Ninguém sabe exatamente por que fazemos o que fazemos. Nem nós. Quando nos juntamos, por exemplo, eu realmente não sabia o que viria – você me convenceu a vir para o terceiro e eu vim, mas você foi.

O terceiro é massa porque não é tão baixo que dê pra vagabundo escalar por fora, mas também não é tão alto e dá pra ir de escada, já faz um exercício, você dizia. Nunca fiz, confesso, só subo de elevador. Eu venho e você foi. De que adianta o exercício de subir se ele não nos prepara para essas coisas? Só faço mesmo o exercício de descer.

Coloco pra você um som, mas você já foi e levou seus livros. Por quê?

O terceiro é bom que não tem tanto mosquito quanto o primeiro e o segundo, porque é um pouco mais alto, você falava. Mas é bom que dá pra sua vó vir, ela é tão pequenininha e esses 24 degraus acho que ela aguenta tranquila.

Aí você pegava o violão e tocava uma música sua. Eu nunca soube as letras porque você não as escrevia, só murmurava. Conseguia pensar em sequências de notas e acordes, mas nunca em sequências de palavras. Tocava baixinho, também e não sei se até hoje você já terminou uma canção. Mas espero que sim, porque os trechos eram tão curtos mas tão bonitos.

O terceiro, aqui, é o melhor de dois mundos, porque essa região é mais elevada. Então é como se fosse um sexto ou sétimo de outras partes da cidade, né?, você comentava. Interessante o raciocínio, realmente aqui tem uma vista legal. Meu primeiro terceiro não tem mais do que três araucárias e umas ruas meio longe, com trânsito, mas, de fato, é melhor do que o segundo segundo, que só mostrava muros, os carros da garagem e um eventual vizinho preguiçoso passeando com o dog.

Por quê? Por que o terceiro se eu só queria o segundo? Mais um segundo, o terceiro segundo.

No fim, não chovia. Seria mais adequado, que chuva combina com despedidas, mas fazia um céu azul e um calor seco, quase feito fogo. Levasse junto as traças que seus livros trouxeram, ainda moram aqui. Quase feito cinzas.

O terceiro foi ruim, porque você parecia tão próximo enquanto ia. Você disse Se cuida, e três segundos depois eu ouvi um Tchau e o som da chave girando. Quem vai embora de fato deixa as chaves, eu acho. Por que levou?

Vesti todas as minhas roupas, uma por uma, e tirei selfies. Em três delas dá pra notar minha testa brilhando muito, não lembro de um dia tão abafado nessa cidade quanto aquele terceiro de março. Mas deve ser só a afeição falando mais alto.

 

Você foi e esqueceu seu violão, a chuteira e um par de fones de ouvido.

 

 

Texto e colagem por Rômulo Candal.

Fotografias de Kurayba e Manchesterfire.