Todos Querem ser Funcionários Públicos 0 222

Fernando não é um profissional. Não tem uma carreira ou colegas com quem reclamar do expediente que se arrasta pelo dia. Tem, sim, um emprego que sustenta mais aos seus patrões do que sua própria família, mas são tempos difíceis para todo mundo.

Como vem fazendo por estes 24 anos, pontualmente chega ao galpão às 7:10 e atravessa o portão estreito até chegar ao local de trabalho. Já na ante-sala, tira cuidadosamente o casaco de pele que herdara do pai e pendura-o sobre a cadeira com o mesmo cuidado desmedido que as mães devolvem suas crias ao ninho. Olha sobre a mesa à procura de recados enquanto esfrega uma mão na outra tentando aquecê-las. Não há nada; sem nomes ou orientações especiais. Serve um pouco de café da garrafa térmica que Lucy enviara, mas ele está mais fraco do que deveria, como acontece todas as segundas-feiras, quando sua esposa, ainda embriagada pelo amor intensivo que recebera durante todo o final de semana, coloca meia colher de pó a menos na garrafa. Mais uma daquelas atitudes bobinhas que tomamos inconscientemente, desejando resultados que nunca acontecerão. Lucy deseja em seu íntimo, sem saber, que Fernando volte para casa logo nos primeiros minutos da manhã, em busca de um café mais forte e encorpado para aguentar todo o stress do dia, e no minuto em que entrasse pela porta encontraria a mulher ainda cheia de amor, a lhe dar mais do que buscava, e ao sair, aí sim estaria preparado para enfrentar aquele dia com um sorriso no rosto. Mas isso nunca acontecera, e embora o ato continue semana a semana, o único efeito é a sonolência matinal de Fernando, que toma a primeira xícara, abre o jornal para olhar as fotos bonitas e exclama para si mesmo “Segunda-feira. Sensação física de quinta”.

Às 7:30 se prepara para começar as atividades do dia. Vai caminhando em direção à porta enquanto estrala os dedos da mão, e em seguida o pescoço. “Humm, este foi dos bons”. Antes de entrar, para em frente ao toca-discos que já está preparado com o Álbum Branco, lado A. Alinha a agulha para a primeira faixa, e sente o arrepio correr pelo seu corpo com o ruído do vinil à espera das primeiras notas. Veste o seu avental branco já marcado com o sangue e suor de seu trabalho, e continua a expectativa para a música, que logo começa. “Isis show times”, pensa tentando citar um filme que assistira há algum tempo com sua esposa. A verdade é que não sabia bem o que significava, mas a frase parecia ter sido pensada para este momento, e fazia com que Fernando se sentisse parte de uma sociedade que só existia em seu imaginário.

Por se tratar de um porão sem janelas, sua sala de trabalho é bastante escura e sem conforto. De um lado, uma mesa com suas ferramentas. Do outro, material de limpeza. Ao centro, a cadeira com seu próximo cliente, já amarrado e com silvertape na boca, que é utilizado também como etiqueta para identificar o nome do sujeito – sempre homem, afinal Fernando tem seus princípios e deixou claro desde o início que não bateria em mulheres. Não conseguiria, argumentou, e esta foi a única condição que impôs. Foi aceito, afinal torturadores não eram fáceis de encontrar antes da internet.

A etiqueta identifica o cliente como James, mas Fernando reconhece aquele rosto. Acabara de vê-lo estampado no jornal sob o nome de Luiz, um deputado que lutava há anos pela educação pública e a valorização dos professores. Parecia ser um bom homem sob uma nobre causa, mas se ali estava, era porque havia feito algo de errado, segundo a conclusão lógica de Fernando. Embora não conhecesse seu empregador, tinha a plena convicção de que aquele era um trabalho honesto e necessário. Estaria ajudando a combater ladrões, corruptos, sindicalistas vendidos, cozinheiros que não lavavam as mãos,  guardas de trânsito, enfermeiras insensíveis, e todo tipo de pessoa que precisasse de uma ajuda pra melhorar as próprias atitudes. Foi até o homem, tirou a fita com força e lhe deu dois tapas na face, uma lembrança de sua infância que trazia como ritual de trabalho. Quando criança, seu pai vinha pelo corredor em direção ao seu quarto com a lanterna fraca e o chamava para acordar. Como invariavelmente continuava com os olhos fechados fingindo ainda dormir, seu pai, um homem justo mas de poucos modos, lhe dava dois tapas na cabeça. “Pra acordar pra vida”, dizia. O terceiro vinha logo após se vestir. “Pra aprender a não começar o dia mentindo”.

Após os tapas de aquecimento, começam os socos que continuariam por várias horas. A mesa ao lado está cheia de facas e ferramentas de corte – todas muito enferrujadas –, mas Fernando usara-as em um único caso, com um cliente que insultou a memória de seu pai. Fora isso, se autointitulava um purista, e por isso usava apenas os próprios punhos. Com o tempo foi aprimorando a própria técnica, e agora dava nome a alguns dos seus golpes, que muitas vezes eram anunciados em voz alta antes de serem proferidos: “Fúria dos Marginalizados!”, e lá vinham 3 socos de direita e 3 de esquerda; “Injeção Letal”, e mais alguns murros em locais estratégicos. Uma singela tentativa de não cair na rotina do emprego, algo que, contraditoriamente, desejava com todas as suas forças.

Como era de se esperar, Lucy não suspeitava da natureza real de sua profissão. Quando, ainda no namoro, lhe perguntou o que fazia, Fernando respondeu de supetão que era funcionário público: um trabalho bastante entediante, mas que ajudava a sociedade. Foi o bastante para Lucy, e principalmente para seus pais, aceitarem o casamento que logo veio. Mas compelido pela facilidade com que sua mulher acreditara naquela mentira quase inocente, passou a desejar o cargo público como seu objetivo único e máximo. Sem êxito até o momento.

Fernando descobriu que a pior surra que poderia dar em alguém, mesmo que merecida, não seria tão dolorosa quanto se Lucy descobrisse a verdade, ainda que lhe contasse quantos bandidos tirou da rua, e realmente acreditou nisso até o exato momento em que viu Luiz sentado à sua frente. Um homem público acima de qualquer suspeita, era pouco provável que de fato merecesse estar ali, e estes pensamentos foram tomando forma em seu dia ao ponto que sentia que a cada soco que lançava, era voltado instantaneamente em sua face. Sem suas certezas, deixava de ser um agente transformador do mundo, um herói ao avesso, e era renegado à mera posição de torturador: uma profissão sem carteira registrada. Não se pode conviver com este tipo de dúvida.

– Como foi o trabalho, querido?, pergunta Lucy ao ver o marido chegar em casa.

– Ahhh – suspira cansado. Uma tortura.

André Petrini.
Foto: Jeff Maurone / cc

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Vida comum parte 1 0 987

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Dai-me Amor 0 978

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”