Untitled S/T #1 0 534

Bernardo Staut

 

E então você chega à porta do conhecimento que diz que você não precisa fazer nada, tudo acontece por si só, como o moto perpétuo infinito universo que se refaz a cada segundo, e você como parte disso precisa fazer o quê? Aliás, não só faz parte, mas pense no fim do fim do fim disso que chamaram corpo e que no fim é formado por exatamente a mesma coisa que tudo e todos e todos os pensamentos traumas problemas bênçãos e milagres, tudo que um dia você leu ouviu falou ou fez, ou fizeram ou vão fazer, e é exatamente isso e só isso que forma você. E na música que toca por traz de tudo isso, você como um da orquestra, tocando devagar ou rápido, errado ou certo, mas ao mesmo tempo o que vibra de você é o que faz o maestro que guia, e também o teatro e a própria música, a vibração. E vão-se anos e anos e sessenta mil milênios e você vai continuar fazendo a mesma coisa, só com um nome diverso. Até o momento que algum dos músicos de fraque ou alguém da plateia que antes dormia em alguma parte monótona acorda, levanta e grita para todos “eu sou a música, pode parar tudo”. Todos se voltam para vê-lo, mas ele não está mais lá… Pra que ficar pra ver a mesma música? Ele saiu para cantar nas ruas provavelmente, ou simplesmente pulou do segundo balcão ou camarote que estava, caindo de cabeça no contrabaixo que não parava nunca de emanar a vibração mais baixa, mais inaudível, aquela para poucos. Ninguém dá muita bola, mas talvez um vá lá para procurar o corpo, que já se dissolveu no som e virou outra tábua da antiga casa. Só resta uma mancha da queda, não de sangue ou carne, mas um borrão, um estilhaço, um pouquinho de poeira. Para lembrar esse ouvinte que esqueceu das regras o ser coloca uma pedra por ali, que mais tarde será empilhada com outras, formando talvez um novo camarote. E teatros após teatros, pó sobre pó, a música toca, alguns dançam, alguns se emocionam, e no fim ninguém sabe bem quem é o compositor, mas que escolha tem? Quem escolhia as músicas já saiu de férias faz tempo e a programação já está em cartaz.

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a mente enquanto objeto quebradiço 0 1702

I

 

a noite aqui fora tá um pouco opressiva, graças ao bafo úmido que levanta do asfalto depois dessas chuvas de verão. passa pouco das oito da noite e eu mando um zap pra Cíntia, ver se ela precisa de algo em casa. “Traz um pão de azeite de oliva pra mim”, ela pede num áudio. quase envio uma mensagem perguntando onde encontrar um negócio tão específico, mas assim que olho pra frente me deparo com um local metido a besta, o típico estabelecimento que venderia pão de azeite de oliva. nunca vi esse prédio. entro, o lugar é descolado, projetado pra ricos moderninhos. uma espécie de galpão abandonado, de pé direito alto e arquitetura estranha, com várias lojas e restaurantes que ficam nas paredes, pelas quais o cliente passeia usando rampas. roupas, massas, eletrônicos, brinquedos artesanais. tipo um shopping pra quem quer se sentir integrado à região mas sem correr riscos.

um conjunto formado por vozes masculinas e femininas, flautas e percussões está distribuida ao longo do térreo e toca uma música em tom menor, bem bonita, lindíssima. é emocionante. choro um pouquinho e sinto uma vontade inexplicável de comprar romãs. peço por romãs, não as encontro, mas de rolê pelo galpão sou abordado por uma senhora, sentada num café afetado. “Psiu. Você quer romãs? Eu sei onde tem”, ela fala, feito gato, e me estica um cartão pessoal com nome que nem leio. “Lá perto de casa as romãzeiras estão carregadíssimas”, mia. sorri.

 

II

 

quando noto, estou descendo de um carro. percurso curto, que rua é essa? a velha me convence a entrar na casa porque precisa avisar qualquer coisa pra filha antes de me mostrar onde acho romãs. ela tem um desenho excêntrico, me deixa confuso, como se um sorrisinho malicioso estivesse grudado pra sempre em um rosto antigo e marcado por muitas mudanças. o cabelo platinado, quase branco. ela começa a falar estranho comigo, “Nossa, você é muito lindinho”, pergunta meu nome, respondo “Paulo. Paulo Braga”. meu nome não é Paulo e meu sobrenome não é Braga e eu não entendo mais o que estou fazendo. a senhora me pede licença e sai do cômodo e nisso a filha entra. igual, mas o cabelo é preto e o rosto é jovem. começa a fazer perguntas inúteis, ela também fala miando. “De onde você é?”, questiona, respondo “Minas”, mas eu não sou de Minas. “Ai, que fofo! Que bom que você vai vir pra cá, passar sotaque pra minha mãe”.

vir pra cá? passar sotaque? do que essa moça tá falando? explico que na verdade sou gaúcho, de Pelotas, e nada muda na dinâmica da conversa. tento me distrair pensando em quando vou finalmente comer as romãs, mas o cômodo tem um ar estranho, um perfume me sufoca e confunde. enquanto a jovem mia bobagens e amenidades, tiro o celular do bolso e jogo no Google o nome da coroa, que copiei do cartão. nome diferente, nunca li nada assim. “Que línguas você fala?”, ela, “Inglês e espanhol”, eu, “Ótimo, mamãe fala muitas outras, já podem viajar bastante”. o clima não tá legal, eu não quero viajar com ninguém, eu fico tenso, o 4G não funciona direito. “Mamãe teve vários homens mas nenhum nunca deu certo. Acho que nenhum estava realmente pronto, sabe? E sempre acabam sumindo, hehe”.

 

III

 

fito a tela. a busca está completa. leio os resultados.

 

travo.

congelo.

 

IV

 

reúno forças e levanto e percebo a velha de volta ao quarto. sorrisinho, vestido e véu vermelho-sangue, quase flutua. penso em correr, mas um miado calmo soa como se viesse por toda parte, formando palavras que mais soam como portas que se fecham.

 

“Aonde é que você pensa que vai? Você fica. Você não vai a lugar nenhum”.

 

 

 

 

 

texto do Rômulo Candal

visual do Marco Antonio

Ressaca 0 1061

Dilmara deu a última vassourada que cabia em suas forças e sentou numa cadeira de plástico, secou uma garrafinha de água em dois goles e já largou o lixo na pilha. Não era o caso de negar fogo no trabalho, só que precisava soltar as pernas antes de pegar a pá e seguir. O conflito com o chão foi longo, cheio de desentendimentos por coisas pequenas. Mas ela bem sabia que as costas não aguentavam mais algumas acrobacias do passado. Atleta, reclamava para si por amor ao esporte, sabendo que não adiantava, mas reclamava e reclamava e reclamava. Pegou um formulário de cima da mesa em frente e uma caneta promocional: “Danos às paredes: s”, “Resíduos f/ lixeiras: s”, “Chão riscado: s, “parte elétrica 100%: n (duas lâmp’s), “Louça na pia: s”, “Barulho depois das 22h: s (relato – Reginaldo/108)”. Sabia do tamanho da bomba que tinha em mãos, até soltou o papel e afastou o tronco de braços erguidos. Seria emissária de notícias desagradáveis contra sua vontade, depois quem pudesse que se salvasse. Mas alguém tinha que fazer o serviço.

O síndico, o Professor, professor de verdade (Educação Física), era um carequinha solitário, cheio de dedos com a manutenção dos espaços comuns – o que se devia a ser ao mesmo tempo um sujeito: decente; chato.

Uma ventania dominou o salão, as janelas tremeram e afinaram-se numa oitava muito alta. A zeladora pôs os pés no chão e sentou direito, sentindo coisa ruim. O Professor apareceu no rabo da lufada: “E aí? Te falei que a Administradora liberou uma comissão pra você se a gente multar esses porcos, né?”, “Não quero dinheiro sujo não, Professor, só tô na minha função de todo dia, com zona ou não. Mas que festa era essa? Trinta pessoas? Bagunça dessa não se faz”.

O homem vestiu sua satisfação como uma medalha, auto-condecorado pelo sucesso de uma missão que só ele entendia. Sentia-se um justiçador, o último dos cangaceiros, o cara que era o bichão, a própria Palas Atena renascida – o que nunca tinha conseguido por outros caminhos. Via-se disposto a fazer o máximo com o mínimo, a tirar limonada de qualquer limãozinho murcho que a vida despejasse na cestinha dele. Perdoar morador malandro de novo seria uma vergonha. Sacou o celular depois de um piiiiin que veio como flecha: “Sabia que a Claro eh a 1a a oferecer ligações ilimitadas p/ qq operadora e tem uma rede novinha c/ 4G mais rápido do Brasil? E ai ta dentro? Acesse …”. Não teve dúvida: fechou a cara, simulou falta e pediu pra sair, tratando a mensagem com uma importância que ela jamais teria. Acenou tchau de um jeitão muito estranho e deslizou para fora do salão com a mesma atitude súbita com que chegou. A mulher fechou as janelas e juntou com os pés umas latinhas que o vento desjuntou; pegou um sacolão azul e fez um sinal da cruz antes de continuar.

 

Marquinho