Em nome do filho 2 912

por Rafael

Seria mais um assalto. Coisa pouca. Manutenção da noite. Um celular, talvez um relógio, com sorte uns oitenta, cem reais na carteira (poucos carregam dinheiro hoje em dia), mas não.

Pai e filho vinham pela calçada vazia. Fui de encontro e avisei do que se tratava. Quanto mais objetivo, menor a chance de dar merda.

Ele tentou reagir. O desgraçado estava armado e não tive escolha. Seria ele ou eu. Atirei primeiro, na barriga.

Puxou o pequeno para trás de si, soltou a arma e caiu de joelhos, olhando nos meus olhos, sem dizer nada. Um olhar que misturava surpresa e medo.

O segundo atirei no rosto para arrancar aquele olhar e corri. Corri por cerca de vinte metros e voltei. Voltei e atirei na cabeça do pequeno, que chorava, que caiu sobre o peito do seu protetor. Atirei por compaixão. Não queria que aquele inocente crescesse sem um pai, como eu.

Perdi meu pai aos onze. De lá para cá a dor tomou várias formas e cores, sem jamais perder seu tamanho. Com o tempo aprendi que a dor é parte de mim, que não seria alguém além dela.

Uma criança quando perde o pai, perde um pouco do que seria. É como apagasse um pouco do futuro.

Somos, ou seríamos, sempre um tanto a partir de nossos pais. Seja por imitação, seja por negação.

Ainda hoje sinto meu coração de vidro, que trinca um pouco mais a cada lembrança daquela tarde escura. Meu pai veio, me beijou e disse que já voltava. Nada especial.

Fechou a porta e nunca mais voltou a abri-la.

Éramos eu e ele.
Eu fiquei.

Fiquei sem jamais saber como reinventar a vida. Sobrevivi das piores maneiras possíveis.

Envelheci uma vida inteira na tarde em que enterrei meu pai. Me sinto um velho sem memórias, sem nada além de dor para contar. Vida de bicho.

O mundo não precisa de outra pessoa assim. Seria injustiça deixar que aquele pequeno inocente se tornasse uma coisa dessas.

Hoje, 22 anos depois, ainda trago no rosto a cicatriz do último beijo do meu pai e, no fundo, sinto inveja daqueles dois, a duas quadras daqui, que misturam seus sangues, o mesmo sangue, sobre o peito-paterno-ainda-quente.

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Lembranças Azuis 0 3357

Esta é a segunda vez que escrevo sobre mim, a primeira foi uma carta. Decidi começar hoje, depois de tanto papai insistir para que eu escrevesse. Ele sempre disse que é assim que os escritores descobrem o que sentem, transformando sentimentos em palavras que dão sentidos ao que sentimos. Por isso eu deveria fazer o mesmo quando estivesse triste, para transformar o que sentia em algo melhor.

Tive um dia ruim, por isso escrevo.

Primeiro vou me apresentar: meu nome é Pérsio, tenho 14 anos, gosto de jogar futebol, não gosto de azeitonas porque elas têm os caroços mais difíceis de serem arrancados, e minha cor favorita é o azul porque descobri há dois anos que sou daltônico e tudo o que é verde para os outros, é azul pra mim. Então quando vejo algo azul, fico imaginando se é mesmo azul ou é verde. O azul é uma cor desafiadora para mim, e eu gosto muito de desafios e aventuras, igual ao Dom Quixote.

No ano passado fiz uns exames e o médico falou que tenho uma síndrome.

Síndrome de Asperger é o nome. Na época eu não sabia o que significava e papai disse que era uma síndrome de pessoas que tinham a perna direita mais forte que a esquerda. Por isso deveriam se esforçar para não andarem sempre para a esquerda e cuidarem no futebol, pra não machucar o goleiro na hora de chutar para o gol.

Hoje já sei que Asperger não tem nada a ver com a força das pernas, ainda que eu tenha o chute mais forte da 5ª D. Quem tem Asperger, entre outras, não sente as coisas como nos livros, nada é tão intenso. Papai falou que os sentimentos são tão fortes assim porque aprendemos com os livros, que de tanto ler, o homem começou a viver as metáforas que só existiam nas histórias, igual ao Dom Quixote.

Eu nunca senti falta de sentir as coisas, até descobrir que o Asperger não agia na minha perna direita. A partir daí, passei a viver nas páginas dos livros, porque sabia que lá moravam as sensações. Mas nada dizia nada, ou era tudo sem sentido.

Descobri que apenas a dor física era pra mim. Desde então se tornou uma espécie de masturbação. Trancado no banheiro eu enfiava a ponta do lápis embaixo das unhas dos pés, até ver o sangue. Não gostava, mas queria sentir alguma coisa.

Um dia papai me descobriu com os dedos sangrando. Achei que ia ficar de castigo, mas não. Ele pediu para que eu escrevesse uma carta para uma pessoa desconhecida, contando por que tinha feito aquilo.

Escrevi e contei tudo sobre minha vontade de sentir as coisas. Contei também que, se tivesse um cavalo, sairia pelas ruas até os campos e descobriria finalmente o que é viver de metáforas, igual ao Dom Quixote. Não exatamente como ele, porque não seria uma figura triste.

E já que a carta seria entregue a uma pessoa desconhecida, aproveitei e perguntei a ela o que era a felicidade.

Fechei a carta num envelope e entreguei a papai para que levasse à pessoa desconhecida. Como já era nove e quarenta e cinco da noite, fui dormir, porque acordaria às quinze para as sete do dia seguinte para ir pra escola.

Cinco minutos para me vestir, dez para tomar uma xícara de café com leite e meio pão com geleia de tamarindo, vinte minutos a pé até a escola e lá estava eu, com dez minutos para jogar um pouco de futebol até bater o sinal.

Quando a aula acabou, saí correndo para chegar em quinze minutos em casa, mas encontrei papai no portão, me esperando. Fui até ele e vi que segurava minha carta. Perguntei se ele ainda não tinha entregado.

Ele disse que não, que ele era a pessoa desconhecida e ia me ensinar as coisas que eu não conhecia.

Na hora estranhei e disse que ele não era um desconhecido, mas sim o meu pai. Mas papai me explicou que as pessoas nunca são totalmente conhecidas pela gente. Sempre temos algo a aprender sobre elas, mesmo quando são nossos pais, e que isso torna as pessoas sempre um tanto desconhecidas.

Na hora eu senti uma coisa que agora sei que é o que todo mundo chama felicidade, porque sorri quando soube daquilo.

No caminho de casa passamos no bosque, onde papai falou sobre a felicidade, que a maioria das pessoas acha que felicidade é sinônimo de sorriso, e por isso riem para o vazio, para se sentirem menos sozinhas.

Naquele dia aprendi que sentimos felicidade quando o mundo parece agir de acordo com o nosso bem, e que isso se chama plenitude, que é outro sentimento. Então, a felicidade nada mais é do que uma plenitude muito intensa. É quando caminhamos sem notar que o tempo também está andando. Papai contou que em momentos de felicidade extrema esquecemos do resto do mundo e nada mais importa, só o que sentimos. Ele disse que ficou assim quando eu nasci.

Eu acho que sinto felicidade quando estou dormindo, porque não penso em mais nada. Será que plenitude é uma espécie de sono profundo? Será que a morte é uma espécie de sono profundo? Estar pleno é estar morto? Papai…

A partir deste dia papai me buscava sempre na saída da escola. Fazíamos caminhos diferentes para voltar pra casa, pois era assim que a vida deveria ser vivida: sem rumos pré-estabelecidos, e cada dia ele me ensinava um sentimento à minha escolha.

Um dia ele perguntou se eu sabia o que era o amor. Eu disse que o amor era o que fazia as pessoas casarem, e ele disse que essa é a ideia errada, que o amor era outra coisa. Uma coisa que completa a gente, mesmo que a gente tenha todos os membros, porque ele completa no sentido metafórico. É quando uma pessoa interage com você e desperta o seu melhor, mas não é como no futebol, que um zagueiro ruim faz um atacante parecer melhor, é no sentido metafórico, onde os dragões do Dom Quixote realmente batalham com ele.

Papai disse que entre eu, ele e mamãe existe amor, porque a gente sempre age querendo fazer o outro feliz, sempre queremos ser bons uns com os outros, e que isso se chama amor de família. Na hora senti que papai me amava, porque ele terminou de falar e olhou pra mim com um sorriso, e eu sorri pra ele.

Um dia perguntei a papai o que era tristeza e ele falou que eu era novo demais para essas coisas, que a vida iria me ensinar, porque é impossível viver uma vida inteira sem conhecer a tristeza. E que isso, por si só, já é algo triste.

Eu achei que ele não quisesse me ensinar porque era muito novo também. Tinha quarenta e dois anos e só descobriria o que é a tristeza quando estivesse com o cabelo cinza, e que mesmo assim não iria me ensinar porque só a vida deve ensinar a tristeza, não as pessoas que a gente ama. Mas me enganei.

Hoje, voltando do enterro de papai, chorei. Chorei porque nunca mais vou ver ele fora das lembranças, e que elas vão me causar uma dor mais forte que a ponta do lápis embaixo das unhas.

Soube que era tristeza quando mamãe me abraçou, me deu um beijo na testa, me apertou ainda mais e disse pra eu não ficar triste.

Quando olhei, ela estava sorrindo. Mas eu sabia que era um daqueles risos que as pessoas soltam para o vazio, para se sentirem menos sozinhas. As lágrimas diziam tudo, porque papai uma vez me disse que só os humanos choram lágrimas, que nos outros animais elas não passam de secreção, igual ao suor pra gente.

Não precisei ficar velho pra descobrir o que é tristeza, ou será que envelheci rápido demais?

Agora papai só existe nas minhas lembranças, e às lembranças não se pode ensinar. Papai jamais saberá o que é tristeza, e isso é bom, porque não queremos que as pessoas que amamos fiquem tristes.

Papai prometeu que quando voltasse do hospital iria me ensinar o que é saudade, mas isso vou ter que aprender sozinho.

texto: Rafael Antunes
ilustração: Rebeca Storrer

Mãe 0 1005

Às vezes eu imaginava ser o homem que mais suava no mundo. Com pouco esforço, vertia-me em mim mesmo, e por muitas vezes suei enquanto almoçava, aquecido pelos temperos de minha mãe que confortavam meu coração. Na minha juventude, a solução foi entrar para o time de natação, onde era possível tomar banho ao mesmo tempo em que se suava. Não há constrangimento em estar suado dentro d’agua.

Eu descobri muito cedo, o suor faria parte da minha vida, tal qual fez do meu pai. Era como se, depois de sua partida, eu suasse por nós dois. Suava para subir as escadas, comer o molho apimentado, fazer a contabilidade do mês, trocar as lâmpadas, falar em público, e para levar minha mãe até a estação de metrô.

Naquele dia não havia sol, e os vendedores de rua corriam na indecisão entre oferecer guarda-chuvas e hand spinners. Pareciam apostar entre si qual teria feito a melhor escolha à espera do inevitável. Eu votaria nos spinners e sua preferência desastrosa, levantando as mãos para fazer com que os brinquedos se agitassem ao vento que bagunçava os cabelos e levantava a sujeira da rua. É como ver alguém apostar todas as fichas no zero verde da roleta: está claro que não vai funcionar, mas não se pode negar a beleza do brilho nos olhos de um otimista.

Como em todas as vezes em que caminhei aquelas três quadras, cheguei suado e atrasado, com o único pensamento possível ao momento. Qual é a dificuldade em calcular o tempo para algo que se faz diariamente? Talvez eu, ao meu próprio jeito, também estivesse escolhendo um spinner em meio à tempestade.

Levava em um braço a mala com poucas roupas, e no outro minha mãe e a constatação cada vez mais óbvia de nosso envelhecimento e inversão de papéis. Via-me andando à frente em passos rápidos, apurado com os mesmos horários e obrigações que ela tinha quando me puxava ainda criança pela rua. Estava virando minha mãe para minha mãe.

Na estação, passei-lhe todas as instruções agoniado ao ver seu olhar disperso, e repeti tudo mais duas vezes com um esforço vigoroso em não aparentar o nervosismo em deixá-la andar de metrô sozinha. Entramos no trem e me dirigi imediatamente ao banco preferencial que lhe é de direito, ajudei a minha cada-vez-mais anciã a se acomodar e arrumei a malinha de roupas entre seus pés, já preocupado em como aquilo poderia ser pesado para ela carregar sozinha depois. Em pé à sua frente, olho com tanta ternura que o trem parece diminuir a velocidade para que aquelas duas estações possam ser o suficiente para reduzir a saudade das semanas que virão. Enquanto miro sua fragilidade, sou transportado não para o meu destino, mas para um passado até então esquecido em minha memória. É minha mãe me ensinado a ir para a escola sozinho pela primeira vez. Via-me ao seu lado em cima do morro, olhando para o meu eu-criança ao longe aguardando o ônibus em uma parada tão próxima da favela, que a faz repensar tantas vezes quanto possível sobre aquela escolha necessária. Braços cruzados, uma das mãos à frente da boca disfarçando o choro para não assustar a cria que vai desbravar o mundo onde tudo pode dar errado, em uma época em que o celular era um luxo de gente que não precisava de transporte público. O ônibus chega e ela acena um tchau que há de não ser um adeus, pelo amor de tudo que for sagrado. As mães são como os anjos, que não têm tempo para ficar tranquilas. Ela continua olhando pelas janelas do coletivo, agarrando a si mesma em uma tentativa de segurar o pranto. Ao seu lado, minha memória a abraça como se confortasse a nós dois em um momento em que entendemos que criamos um ao outro sem nos ensinarmos a sobreviver no transporte público da saudade. No trem, desço na minha estação e continuo olhando para ela, sentadinha ao lado da janela. Aceno um tchau apreensivo e percebo que, além de seus cuidados, tenho também os seus olhos. Os olhos que mais suavam no mundo.

 

Texto: André Petrini
Foto: Konstantin Filatov