Dia de festa na firma 0 498

Segunda-feira morna em setembro de 2008. 8h48. Maria, ainda cheia de sono e sempre cheia de graça, chegou ao trabalho refletindo sobre diversos temas, transitando entre um e outro em velocidade desnecessária, desproporcional para a suposta necessidade do momento. Naquela altura nenhuma de suas aflições parecia valer a pena, o que ela considerava estranho, curioso, intenso e verdadeiro, porém fazendo uso de outros termos, inescrutáveis.

O que são preocupações e de onde elas vêm?

Em estado de contemplação, ou ainda, numa apatia que não prejudicava ninguém e a nada agredia, estacionou a própria moto na rua, subiu as escadas até o segundo andar do prédio comercial onde a empresa em que é ainda hoje recepcionista está instalada, entrou na firma, cumprimentou quem estava por ali mais perto, pegou uma caneca grande de café sem açúcar na copa, sentou-se em seu posto e ligou o computador. Policiou-se para respirar lentamente enquanto aguardava o aparecimento da tela de login na máquina. Deixou uma folha de sulfite A4 em branco e uma caneta preta bem posicionadas e começou as atividades do dia.

Deparou-se com várias novidades quando abriu a caixa de e-mails do trabalho. Tudo bem. Cada um deles seria, como foi, respondido ou ignorado protocolarmente. Quando abriu a sua caixa de e-mails pessoais, porém, uma mensagem dele, …

O título era “Oi”. Conferiu novamente se o remetente era mesmo quem ela, afinal, já sabia que era. Respirou fundo, sentiu o estômago pesar, como quando um elevador de parque de diversões começa sua corrida rumo ao chão, ou como se sente quem pula de paraquedas. Nervosismo, enfim. Além da mensagem extensa e, para ela, cheia de sentido, havia ainda uma foto dele em anexo, apenas visualizada depois da leitura do texto abaixo:

“Oi.

Tudo bem?

Enfim.

De mim você sabe, né? “Olhos de lince, olho no lance” etc. Sem mais.

Então.

Queria te contar que eu queria que você visse o céu que eu vi, e as nuvens e as sombras que estão sempre perto, e vão sempre estar ali, por serem ali. Se quiser saber o que acho disso, é o seguinte: o segredo pra viver bem com esse lance é olhar com coragem pra elas, de coração aberto. Prestar atenção, essas porra. Se não queria saber o que acho sobre isso, desculpa, mas agora já foi. Eu sei que você me perdoa.

Esses dias, senti seu abraço e chorei despreocupado por encontrar conforto, apesar de (…) – não faço ideia do tempo de relógio que aquilo durou, mas tanto faz, porque juro que não fazia sentido pensar em contar nada no relógio ali.

Afinal, o que faz sentido? (celebremos por isso também)

Tô voltando. Aviso você um pouco mais perto do dia. Tomara que a estrada esteja boa. É provável que esteja.

Aliás, a questão é: a estrada ou eu?

Li por aí que os pedágios continuam caros demais. De qualquer forma, é uma pena que o dinheiro arrecadado não esteja sendo investido onde deveria, já que Eles fazem contratos e discursos pra legitimar a própria violência, mas nunca apresentam uma contrapartida efetiva.

Conhece aquela sensação de não querer falar sobre algo? Sabe quando você se esforça pra usar palavras quando não é necessário? Por que, né?!

Hahahah…

É isso.

Por isso isso tudo.

(ou isso muito, ou isso aí).

Paz.

Beijo.”

Tudo claro. Maria sabia. Abriu anexo. Viu a foto dele. Tomou café. Dirigiu-se ao banheiro. Trancou a porta. Chorou. Não havia passado maquiagem no rosto antes de sair de casa. Lágrimas não atrapalharam visual. Voltou serena à mesa de trabalho.

Ela sabia. Isso importava. O resto, ou quase todo o mais era mentira.

Marco Antonio Santos

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Distante das Linhas de Nazca 0 967

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 782

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski