Renúncia 0 597

por Rafael

Pode parecer tarde demais, ainda que eu duvide que o presente possa estar atrasado em relação a alguma coisa. Renunciar ao que dedicamos a vida inteira pode parecer desperdício de todo o passado, mas estas linhas são as últimas que escorrem de mim.

Gastei meus dias, um a um, buscando me encontrar através das palavras e o que tenho hoje são papéis e mais papéis rabiscados, além de um vazio cotidiano que não me preenche.

Dia após dia me escondi e reservei o melhor de mim às frases. Verbos guiavam sujeitos em uma busca desesperada pelo direito a um adjetivo qualquer.

Reservei minhas paixões mais violentas para os livros e aqui estou, diante de milhares de páginas desconexas, que já não me dizem respeito.

Algumas poucas pessoas tiveram acesso à minha intimidade, mas resisti. Resisti e blindei  possíveis cumplicidades.

Noites em claro buscando descrever o abstrato e acabei por sufocar minhas próprias paixões. Deixei para amanhã.

Trago na memória uma relação (não muito longa) de amores-não-vividos, que por muito tempo me bastaram, me convencendo de que bastaria que os descrevesse. Gozava nas entrelinhas.

Tudo passou. Os sequer-amores, as linhas, os verbos, os sujeitos. Restei.

Por isso me encerro-só nestas linhas, mas não para viver. Apenas para me entregar. Me retirar.

Já não possuo forças, sequer vontades de outrora.

Tento me convencer da sinceridade que apliquei em minhas opções, que me trouxeram a este não-lugar.

Deixei um pouco (mas muito pouco) de mim em cada interação, em cada palavra. Sei que jamais terei certeza de possíveis acertos em minhas decisões. As escolhas simplesmente são, acontecem. Nós é que as classificamos como certas ou erradas de acordo com os frutos colhidos.

Por isso, aqui me encerro. Já sem muito ao que me entregar, já sem me reconhecer nestas linhas que me sequestram de minha própria existência.

Às dores e sequer-amores que me consumiram, a eterna gratidão. Foram os sentimentos que mais tiveram de mim.

Ainda assim, se tornaram linhas escritas. Ficando em um passado que, ai, jamais alcançará o amanhã.

Assim como eu, que me encerro no vazio deste ponto final.

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Alvoradas 0 1726

desentristecer
é iluminar a alma
como renascer

algo que insiste
que conduz
do triste
ao tecer

é persistir
na felici

No instante em que o sol se depositava feito moeda no dourado do mar, Pérsio estancou seus versos. Sabia que letras teriam força alguma para lhe conduzir para além do esquecimento.

Talhara em si um emaranhado de signos para forjar a própria memória. Diluiu-se em palavras-dispersas e estava só. Era agora um infinito de páginas inacabadas, abrigadas num todo que era nada. Uma luz vista por ninguém.

Mergulhado na escuridão, baixou o olhar até doer. Via ausência em si. Mesmo diante do mais límpido espelho encontraria cumplicidade alguma. Tudo era noite.

Sem seus versos, Pérsio era lágrima que escorre só, que seca com vestígio algum. Feito nunca existido.

Feito esperança, buscou lembranças de luz. Como as registradas por relógios de sol, que ignoram momentos menores. Tinha para si que, para a felicidade, palavra alguma seria necessária. Que é na plenitude do silêncio que as verdades se eternizam em nossas almas e nos conduzem às alvoradas de si.

 

texto: Rafael Antunes
ilustração: Nina Zambiassi

Crise Diplomática 0 1031

Havia algo de tão distante entre nós, que poderíamos ocupar o mesmo cômodo em países distintos, cada qual entrincheirado em sua nação particular. A diplomacia falhou, não há convenção de Genebra nem de lugar algum para se respeitar, todos os pactos foram rompidos. A comunicação se dá por breves gestos, mas não consigo decifrar todos seus enigmas, não existe código Morse que me ajude. Estou cercado por todas minhas insatisfações, libertadas na ânsia de me municiar na batalha, seus efeitos explosivos agrediram ambos os lados; vejo seus ferimentos expostos, quero declarar uma trégua, preciso estancar o sangue que esvai-te. Preparo-me para cruzar a fronteira, falo mas não comunico nada além de grunhidos, esquecemos do idioma que havíamos criado para nós; as pernas travam na lembrança de quantas minas terrestres se interpõem até você, não sei o que estou disposto a perder, sei que agora tenho muito pouco. Tuas tropas mudam de posição quando percebem uma aproximação que julgam sorrateira, venho em paz, mas esqueci de hastear a bandeira branca; faço tocar teu telefone vermelho, que cora teu rosto num toque mudo. Tento falar sua língua, enquanto você recorre à minha, é estranho até mesmo se entender após tantas batalhas. A paz se faz necessária para ambos os lados, há uma guerra que ninguém pode vencer e que já não me disponho a lutar, cedo-te todo o território em nosso enclave, você vai além, propõe a exclusão de toda e qualquer fronteira. Cada um realiza surdamente o julgamento de seus próprios criminosos de guerra, expurgo todos os velhos hábitos que foram estopim e armamento no conflito.

 

Planto flores sobre o campo minado, esperançoso de que nossos pés jamais tornem a pisar a beleza que cultivamos ao nosso redor.

 

Escrito pelo Gabriel Protski

Colagem feita pelo Mister Blick