Gelatina de morango e leite condensado 0 818

Férias em Bombas, Santa Catarina. Estava bom, mas agora não mais.

Mais que sol, só tomei cachaça nesse verão.

Não, pera. Elas não tão ligando o carro. Elas tão indo? E…las…tão……………………in…dem…bo…ra. E eu aqui sozinha olhando pra dois dos meus agora ex-dentes no chão. E eu ainda fui olhar preço de passagenzinha de ônibus pra elas virem pra esse inferno. Tomara que a polícia pare essa porra desse carro roubado daqui um minuto, ali perto daquele negócio em cima, sei lá o que é aquilo. Comércio, enfim. Ou elas podiam bater essa desgraça e morrer, também. Tinham que tomar tiro na cara, as duas, e aí sim bater e explodir. Deve ser difícil ver carro explodir. Carro não explode. Deve ser por isso que explode em filme de ação, porque é mentira. Mas aqui num tem Van Damme, num tem Dragão Branco, Entrevista com o Vampiro, Missão Impossível, Duro de Matar, Transformer, Crepúsculo, Dois Coelhos, Tropa de Elite, jogo voraz, Cidade de Deus, Harry Potter e a Casa do Caralho, nem porra nenhuma.

Acabou. Dentista é caro. Pior que caro: dói com anestesia, sem anestesia, sei lá o que eles usam na injeção. Deviam colocar mais daquele negócio que deixa a boca toda morta em toda anestesia. Micrograma, miligrama, grama, sei lá. Tinha que ter daquilo em quilo, litro. Dentista faz doer. Incomoda, morder a língua e tudo por dentro, e sangra, sangra. Algodão, cospe, água, jato de ar, barulho sinistro. Tô sem dinheiro nem pra voltar pra casa, quanto mais pra dentista. Piada de dentista é meio sem graça. Dentista é meio sem graça. Dentista é dentista, tanto faz. Deve até ter dentista engraçado, mas eles não precisam, porque dentista não é palhaço do Beto Carrero. Nem aí. Não ia voltar pra casa mesmo, nem pagar pra ir no dentista, nem nada. Nem sei que horas tem ônibus, nem quero saber.

Cadê minha filha? Isso eu queria saber.

Era mais legal olhar pros meus dentes fora da boca quando eu tinha cinco ou seis anos e eles caíam, um a um, empurrados pelos novos nascendo. Enrolar um dente de leite mole com fio dental e mexer de leve pros lados, puxar devagar, até a hora que ficar bom de arrancar. Isso é bom. Era bom. Era vida. Era morrer um pouco. Agora não tem nada bom. Tá tudo errado. Cheiro e gosto de sangue na boca cheia de saliva, pinga com limão e dor. Minha cara deve tá ficando preta do tanto de soco que levei do segurança. Um cara desse tamanho batendo em mulher. Num tem mãe não, oh?! Minha boca tá sangrando. Vou vomit…

Respira. Respira. Inaaaaaaaaala. Exaaaaaaaaaaala.

Inara, Inara, Inara, Inaraí…

Tem gente que rouba coisa pior que gelatina e leite condensado e fica solta. Acabou. Não vou fazer minha batida tradicional hoje, e eu juro que queria beber um pouco daquilo. Sem veneninho pra mim. Queria tomar um banho gelado. Não fico presa muito tempo não, pelo menos. Será que os funcionários desse mercado tomam banho na loja? Acho que esse segurança devia perguntar lá dentro, que ele tá fedendo mais que eu. Ó a sirene chegando. Vou apanhar mais um pouco e esperar a polícia sem bagunçar mais nada. Não consigo fugir.

Não tenho força pra lutar com esse Monstro.

Nem queria ter.

Não vou resistir, nunca mais. Pra nada.

Marco Antonio Santos

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Impressões Sinestésicas de Um Entusiasta 0 2174

This Will Destroy You

Another Language | Cinderella 99

Há um sussurro quase inaudível, penetrando por debaixo da porta e passando pelas pequenas frestas na janela, carrega uma mensagem codificada de algum lugar distante, em um tom suavemente sedutor; estimula os olhos a enxergarem longe, principalmente se fechados. A esperança, natural aos novos fenômenos, abre um pequeno portal em minha frente: não enxergo nada além de sua profundidade, e, já é tarde demais para escolher não progredir através desse vórtice. A renúncia à paz, que se faz presente em toda nova empreitada ao desconhecido, sequestra-me e me lança em direção ao que nem sabia que procurava; decodifico o início da mensagem e a revelação é clara: estou prestes a descobrir um novo idioma.

 

Sou devolvido ao lugar onde comecei e não sou mais o mesmo, uma força que transmite uma paz inquieta mudou tudo de lugar, e, tanto os móveis quanto as sensações agora ocupam posições mais confortáveis. Tento me familiarizar com o novo momento, me aproximo de sentimentos que sempre me foram íntimos e os descubro restaurados, há uma nova vibração emanando em torno de mim, cada vez mais tátil; já não sei se a levo comigo ou se sou carregado por ela.

 

Viajo num mundo confortavelmente desabitado, me sinto pleno em minha solidão, contemplo o deserto em quase todo o horizonte; vejo apenas uma montanha, distante, que calmamente vem em minha direção. O chão vibra com ternura conforme o espaço entre nós diminui. Cordial, ela se abaixa para eu enxergar o que carrega em seu topo; atinjo seu ápice, e uma pequena interferência me leva para onde as nuvens nublam suavemente a visão. Viro para o outro lado, observo um abismo, que me contempla de volta. Desço como quem flutua, mas sei que o caminho reserva novas surpresas; sinto a pulsação do vento mudar, enchendo as nuvens de eletricidade enquanto algumas delas se acendem, gerando pequenas explosões que iluminam o caminho.

 

A luz que dá impressão de rarear muda de cor, assume uma dramaticidade rubra, com sombras demarcadas. Sou envolto em uma tensão que não transmite temor, necessária para a dissolução de antigos reinos. É parte da história que nos contam desde que nascemos, é objeto, mas nem por isso é obstáculo. Quando a tensão se dissolve, o chão volta a ser plano, a energia que passa a me envolver parece ter surgido de dentro para fora. Uma paz, que por mais curta que seja, traz a ideia do eterno. Para chegar mais longe, alguns passos tentam nos guiar até nossos ancestrais; somam-se a mim forças reunidas de outros tempos, calor de partículas que o cotidiano insiste em esfriar. A percepção de sua existência me convida para lugares onde se desmaterializa tudo que criei, me conforto em esquecer o que não preciso carregar.

 

Docemente, os sons começam a se esvair pelo quarto, e já não me preocupo mais em impedir que se escapem pelas frestas, volto para um lugar análogo de onde eu era, repleto de novas perspectivas. Me conforta a comprovação de que ainda vou me interessar por tanta coisa que desconheço. Trago a paz que as boas viagens nos reservam ao voltar para casa, com a convicção de que tudo é linguagem e nada é apenas ruído.

thiswilldestroyyou.bandcamp.com/album/another-language

a mente enquanto objeto quebradiço 0 1822

I

 

a noite aqui fora tá um pouco opressiva, graças ao bafo úmido que levanta do asfalto depois dessas chuvas de verão. passa pouco das oito da noite e eu mando um zap pra Cíntia, ver se ela precisa de algo em casa. “Traz um pão de azeite de oliva pra mim”, ela pede num áudio. quase envio uma mensagem perguntando onde encontrar um negócio tão específico, mas assim que olho pra frente me deparo com um local metido a besta, o típico estabelecimento que venderia pão de azeite de oliva. nunca vi esse prédio. entro, o lugar é descolado, projetado pra ricos moderninhos. uma espécie de galpão abandonado, de pé direito alto e arquitetura estranha, com várias lojas e restaurantes que ficam nas paredes, pelas quais o cliente passeia usando rampas. roupas, massas, eletrônicos, brinquedos artesanais. tipo um shopping pra quem quer se sentir integrado à região mas sem correr riscos.

um conjunto formado por vozes masculinas e femininas, flautas e percussões está distribuida ao longo do térreo e toca uma música em tom menor, bem bonita, lindíssima. é emocionante. choro um pouquinho e sinto uma vontade inexplicável de comprar romãs. peço por romãs, não as encontro, mas de rolê pelo galpão sou abordado por uma senhora, sentada num café afetado. “Psiu. Você quer romãs? Eu sei onde tem”, ela fala, feito gato, e me estica um cartão pessoal com nome que nem leio. “Lá perto de casa as romãzeiras estão carregadíssimas”, mia. sorri.

 

II

 

quando noto, estou descendo de um carro. percurso curto, que rua é essa? a velha me convence a entrar na casa porque precisa avisar qualquer coisa pra filha antes de me mostrar onde acho romãs. ela tem um desenho excêntrico, me deixa confuso, como se um sorrisinho malicioso estivesse grudado pra sempre em um rosto antigo e marcado por muitas mudanças. o cabelo platinado, quase branco. ela começa a falar estranho comigo, “Nossa, você é muito lindinho”, pergunta meu nome, respondo “Paulo. Paulo Braga”. meu nome não é Paulo e meu sobrenome não é Braga e eu não entendo mais o que estou fazendo. a senhora me pede licença e sai do cômodo e nisso a filha entra. igual, mas o cabelo é preto e o rosto é jovem. começa a fazer perguntas inúteis, ela também fala miando. “De onde você é?”, questiona, respondo “Minas”, mas eu não sou de Minas. “Ai, que fofo! Que bom que você vai vir pra cá, passar sotaque pra minha mãe”.

vir pra cá? passar sotaque? do que essa moça tá falando? explico que na verdade sou gaúcho, de Pelotas, e nada muda na dinâmica da conversa. tento me distrair pensando em quando vou finalmente comer as romãs, mas o cômodo tem um ar estranho, um perfume me sufoca e confunde. enquanto a jovem mia bobagens e amenidades, tiro o celular do bolso e jogo no Google o nome da coroa, que copiei do cartão. nome diferente, nunca li nada assim. “Que línguas você fala?”, ela, “Inglês e espanhol”, eu, “Ótimo, mamãe fala muitas outras, já podem viajar bastante”. o clima não tá legal, eu não quero viajar com ninguém, eu fico tenso, o 4G não funciona direito. “Mamãe teve vários homens mas nenhum nunca deu certo. Acho que nenhum estava realmente pronto, sabe? E sempre acabam sumindo, hehe”.

 

III

 

fito a tela. a busca está completa. leio os resultados.

 

travo.

congelo.

 

IV

 

reúno forças e levanto e percebo a velha de volta ao quarto. sorrisinho, vestido e véu vermelho-sangue, quase flutua. penso em correr, mas um miado calmo soa como se viesse por toda parte, formando palavras que mais soam como portas que se fecham.

 

“Aonde é que você pensa que vai? Você fica. Você não vai a lugar nenhum”.

 

 

 

 

 

texto do Rômulo Candal

visual do Marco Antonio