Em algum lugar algo nos espera 0 558

por Rafael

Após anos morando nas ruas, chego à conclusão de que pressa e vida pouco se dizem respeito. Durante anos corri atrás de prazos e metas para um futuro em que o mundo estaria ao meu alcance. Mas só agora, sentado à margem desta calçada, sinto que finalmente alcancei minha vida.

Aqui como, durmo e faço tudo o que vocês fazem em suas casas. Talvez com a diferença de que quando acordo querendo ir ao banheiro eu preciso andar dois quarteirões (até a praça).

Precisei de tempo e paciência para conseguir a paz que me permite estar. Dia após dia vaguei por quase todos os becos desta cidade.

Quando somos jovens, confundimos constantemente o medo de ficar, com  a vontade de estar em todos os lugares. E nos projetamos mundo afora, endurecendo a cada esquina. E era isso o que eu sentia: medo de estar só, comigo.

Fingia buscar algo ou alguém, quando apenas evitava olhar o espelho. Forjava uma eterna busca, quando no fundo estava em fuga.

Do que fugi primeiro?

Das primeiras fugas de minha vida, já nem lembro. Mas tenho silêncios e dores do dia em que me deparei com o pavor que me fez fechar a porta da casa que construí com minhas próprias mãos durante três anos. Nunca mais voltei.

Era tarde, era sol, 8 de agosto de 2010 e aniversário de quatro anos do casamento mais lindo desse mundo: meu e de Irene.

Era também dia dos pais, mas a data nunca me trouxe alegria, apenas a esperança de que no ano seguinte eu teria um pai. Jamais aconteceu.

Naquele domingo, mesmo sem um pai, eu estava feliz. Trabalhei normalmente no posto de gasolina, até as três da tarde. Completei o tanque de uma meia dúzia de famílias em festa. Coloquei vintão em carro de gente nova em busca de vidas inimagináveis, e às três e vinte já estava diante do portão preto de nossa casinha branca.

Trazia na mão uma flor pra Irene. Dessas que caem das árvores e nos encontram na rua.

Entrei. O silêncio da casa era comum nos dias em que Irene dormia depois do almoço. Mas a cama estava arrumada.

Sobre meu travesseiro solitário, um bilhete escrito em azul, com o típico garrancho de Irene: “Não me procure, por favor”.

Pouco entendi e saí procurando pela casa. Sala, banheiro e cozinha eram tudo além de nosso quarto. Nada.

Sobre o fogão, uma única panela. Na tampa, um novo bilhete, também em azul, aparado por uma colher: “Meu último feijão, pra você”.

A panela estava morna, o feijão estava fresco. Irene teria saído umas duas horas antes. Pra onde? Nunca poderia saber. Jamais iria contra as vontades de Irene.

Comi o que pude do feijão ali, em pé, diante do fogão impecavelmente brilhoso.

Tapei a panela, virei as costas, andei até a porta da sala, saí e fechei. Sequer tranquei. Deixei as chaves por lá. A rua agora seria a minha casa.

Não poderia viver em um lugar que respirasse Irene. Sufocaria. Seria engolido pela morte daquelas paredes brancas.

Em três meses foram quatro cidades. Perambulando por ruas, endurecendo a cada esquina. Para que seguisse sem jamais contrariar Irene.

A dor da solidão me destruía a cada segundo. A cada lembrança de um passado que não resistiu, do pai que não veio.

Até que pude admitir que estava sozinho no mundo.

Uma vez li uma entrevista com uma escritora famosa que dizia que o ser humano é um ser solitário. Que cedo ou tarde se descobriria só, no mundo. Era eu.

Sou eu. Sem a pressa de ser.

Desde então, leio sempre os jornais do dia anterior, que pego no lixo. Sem problemas, pois a vida não tem pressa. As coisas de ontem ainda existem hoje. O tempo corre apenas pra quem foge do amanhã. Ou: “O tempo corre com a gente junto”, como dizia Irene.

Cuido dos carros que estacionam aqui na rua só quando preciso de algum trocado. Sinto é nojo daquela cara de medo que as madames me olham, sempre abraçando as bolsas, como aquelas merdas de couro e marcas valessem alguma coisa pra mim.

Já tive vergonha de pedir dinheiro por aí, mas não tenho mais. É uma atividade tão humilhante quanto a de todas as centenas de pessoas que passam aqui, diante do meu colchão, todos os dias. Com a diferença de que elas se sentem dignas por possuírem uma carteira assinada em troca do tédio diário e café morno na garrafa térmica.

Muitos têm pena de mim. Passam e me olham com piedade, virando o rosto se eu retribuo o olhar. Já não lembro do último sorriso que me dirigiram.  Sequer “bom dia” recebi essa semana. Nem ligo mais.

De lá pra cá, deixei de correr atrás de um tempo que não chegaria, pois somente com calma conseguimos viver no presente, sem atropelar os nossos sonhos.

Sim, gente. Morador de rua também sonha.

Já sonhei em reencontrar Irene numa esquina improvável qualquer, ter uma nova casinha, montar família, ser pai, levar meus filhos pra Disney, mas hoje não. Sou desses solitários, que gosta de se ouvir no silêncio entre os desesperos das ruas.

Nunca mais vi Irene, nem voltei na nossa antiga casa. Mas ainda lembro do gosto daquele último feijão e dos silêncios que inundaram tudo por lá. Lembranças.

Lembranças que chegam até mim neste dia dos pais de um ano que já não me importa qual é.

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Dai-me Amor 0 2330

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 2579

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”