Tela 0 646

por Jadson

Os estúdios estavam vazios naquela tarde. As equipes de Tv todas na rua, gravando em parques, em favelas, enquetes em praças, comportamento, compras, fofoca, o mundo e suas insignificâncias. Monitores de computador com tela apagada. Televisores gigantes presos às paredes, ligados em todos os canais abertos. Fresnéis pendurados no forro preto. A bancada de onde os apresentadores leem notícias no telepronter está no escuro.

Hoje é domingo, nenhum programa ao vivo vai ao ar. O desenho animado e os quadros gravados sustentam a audiência com braços fracos. Impedem que fique no traço e entretêm uma meia dúzia de pessoas que não vai ao parque, que não vai ao shopping, que não tem piscina, que não tem nada, apenas a caixa preta na sala de estar, tela chiada de quatorze polegadas em cima da cômoda de madeira mal vernizada. Apenas um computador está ligado dentro daquela redação à meia luz. O mundo ali dentro é outro. Não há ruas, não há dia ou noite, não há rastro humano, há tão somente um lampejo de realidade. Tudo se imagina.

O produtor solitário, o folguista que cuida da programação, que guarda as mesas de edição contra eventuais casos de pane, mais parece o artista da fome de Kafka. Seu definhar vagaroso é entretenimento. Sua imaginação barata, sua falta de criatividade é o que alimenta uns poucos olhos semicegos por uma catarata magnética. Não passa de um mercenário que ganha com as cenas tristes, com o Pica-Pau e suas caracterizações de demônio com charuto na boca, acendendo com o dedo. – Quantas crianças já não torraram o dedão da mão direita depois de assistir uma merda dessas, pensa o folguista.

Espreguiça-se na cadeira de couro preto enquanto bate-papo na internet com uma garota que, assim como ele, está imersa em um poço de tédio profundo. Mesmo o conhecendo somente por uma minúscula foto de perfil eletrônico, transaria a tarde toda só pra sentir o gosto de suor sexual, gosto que fica no ar por horas.

Ao redor do mundo existem pelo menos outros cinquenta mil casais fazendo a mesma coisa, exatamente naquele instante. Nutrem seus cérebros com expectativas, fantasiam coisas inacessíveis, prazeres confinados, masturbação biônica ao som de ‘Indo Silver Club’ dos robôs luso-franceses que ganharam o último Grammy Awards. Produção em massa, televisão para todos, sexo com gosto de puberdade. Os dedos só não pegam fogo nos teclados pretos, de signos brancos, por causa do ar-condicionado. Uns quinze graus, contra trinta e dois lá fora, debaixo do sol.

A garota enfim tira a roupa. Mostra os seios, coloca o notebook nos pés da cama e abre as pernas na direção da pequena webcam, na parte de cima do monitor. Enquanto ela massageia os lábios o folguista solitário acaricia com leveza o pau por cima da calça. Permanece incólume, seu ar de obviedade inibe qualquer chance de alguém pegá-lo em flagrante. Mais alguns minutos de sexo virtual e ele começa a ficar tenso, porém, decide não parar com aquilo, mesmo com a eminente chegada de outras pessoas. São quase seis horas, os editores devem estar a caminho. Vão preparar as reportagens do jornal de amanhã, que vai ao ar bem cedo. A tela é um mundo plástico onde nada penetra, apenas se espalha, se autocopia.

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Frio de matar Mendigo 0 2229

Estamos na copa de 2018, no Brasil, uma manhã chuvosa e um frio de matar mendigo, enfim, o descrito se consumou, estava indo até o posto próximo a minha casa e para chegar até o posto eu tinha que passar por uma trincheira, estava eu, fumando meu cigarrinho, eram exatamente 6:48 da manhã, quando, começo escutar um som de um violão e uma voz meio rouca, com soluços e demonstrando um tanto de álcool no sangue do seu portador, cantando o seguinte refrão:

– um toque de bola

– é nossa escola

– nossa maior ambição

– estou nas trincheiras

– Minha companheira pro frio, não resistiu

– enfim, esse é nosso Brasil

Em seu violão de apenas 3 cordas, esse mendigo, parecia ser o melhor no que fazia, chegando mais perto, percebi que ao seu lado, havia um corpo, enrolado em uma coberta, creio eu, que a única coberta que existia para eles dois, então, decidi parar e perguntar a ele o que havia acontecido, claro, que, eu já tinha uma certa noção do que tinha se passado, afinal, como disse no começo, estávamos na época em que o frio avassalador das cidades do Sul matavam mendigos.

– Olá meu amigo, desculpa lhe interromper, mas será que eu posso lhe ajudar de alguma forma?

– Olá meu senhor, eu não quer ser grosso com o senhor, mas, você só poderá me ajudar se tiver uma forma de voltar no tempo, você consegue?

– Pouts, infelizmente eu não consigo te ajudar desta forma, mas, me conte o que realmente aconteceu e vejo como posso te ajudar.

– Então senhor, essa é a resposta que eu estou acostumado a ouvir todos os dias, me perdoe, qual é seu nome?

– Meu nome é Roberto, amigo, e o seu qual é?

– Então seu Roberto, eu já não consigo lembrar meu nome, pois, de tão acostumado que estou em ouvir as pessoas me chamarem de mendigo, vagabundo, sem vergonha e ladrão, acabei que esqueci o meu nome verdadeiro, mas, se quiser, pode me chamar Zé, afinal, sou um Zé ninguém.

Nesse momento, eu fiquei sem palavras, por pelo menos uns 2 minutos, olhando para aquele mendigo que estava desacreditado totalmente da vida e de sua existência e claro, não conseguia deixar de olhar para aquilo enrolado no coberto, que parecia realmente um corpo, quando consegui voltar daquele “transe” eu criei coragem e perguntei.

– Então, não vou lhe chamar de Zé, pois, pra mim, você não é um Zé ninguém, irei lhe chamar de amigo, até que você consiga lembrar o seu nome e queira me falar, até lá, me perdoe, você pode me dizer quem está deitado aí do seu lado? Aquilo que você estava cantando realmente aconteceu?

– HAHAHAHA, Senhor Roberto, o senhor é engraçado, nunca, desde que eu perdi tudo, ninguém parou para me ouvir por mais de 1 minuto e agora você me aparece querendo conversar comigo, olha, eu não sou de falar meu nome para os outros, afinal, ninguém se preocupou em perguntar, eu não esqueci meu nome não, como você me parece ser alguém legal, meu nome é Heitor, a, em relação ao que você me perguntou sobre o que estava cantando, sim, é verdade.

Mais alguns minutos de silêncio, pois, foi a primeira vez que eu vi o fato consumado de algo que eu sempre ouvi falar.

– Heitor, poxa, que nome forte meu amigo, fico infeliz pelo que aconteceu, mas, quem de fato era essa pessoa que estava lhe acompanhando?

– Então, essa pessoa que estava me acompanhando, desde que perdi tudo é alguém que eu encontrei nas ruas meu nobre, é a única pessoa que me ofereceu metade da comida que ela tinha, metade do cobertor, metade da bebida, metade do dinheiro e o seu coração, ela, enxergou em mim o que mais ninguém da minha “família” conseguiu enxergar, logo que perdi todo o dinheiro que eu tinha, o emprego, eu fui expulso de casa, com uma mão na frente e outra atrás, eu não gosto de lembra dessa época, então, vou para de falar por aqui e agora, sabe aquele pergunta que o senhor me fez? Sobre me ajudar de alguma forma? O Senhor pode sim, me faz o favor de ligar para alguém e pedir para vir aqui e outro favor que lhe peço, de coração, me deixe sozinho com a minha amada, preciso me despedir, por favor, vá, sem falar uma palavra e nem sequer olha para trás, pois, nos dias em que eu precisava, foi exatamente o você e milhares de pessoas fizeram, um forte abraço e reflita.

Eu já não queria mais importunar o Heitor, porém, peguei uns trocados do meu bolso, como um sinal de rendição por todas as vezes que o ignorei e coloquei ao lado do corpo enrolado na coberta, voltei a acender o meu cigarro que havia apagado por falta de tragadas, não olhei para ele, nem para o corpo e apertei o passo em direção ao posto, comprei mais uma carteira de cigarro, uma bebidas e voltei pelo mesmo caminho, desta vez, preferi atravessar a rua, desde então, nunca mais o vi.

Texto: Giovane Santos
Ilustração: Helton de Prado Carvalho

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 2485

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”