Como deveriam ser os dias 0 94

por Carolina

O sol me acorda por uma fresta na cortina.

Com um feixe de luz a definir, em parte do meu rosto, uma grossa linha calor solar, decido que hoje trocaria o pensar pelo sentir. Em vez de deliberar meus passos e gestos a partir de impulsos racionais do cérebro, descolados das batidas emocionais do coração e carregados das preocupações cotidianas, eu faria o que tivesse vontade (não vos alarmais, forças divinas, eu não intenciono causar mal a ninguém nem penso ser este o sentido de “liberdade”). Está definida a última definição do dia; seguirei hoje aquela coisa invisível que não se pode ver e que está sempre oculto por dentro da gente, doida pra saltar afora, sempre à espera de quando deixaremos de lado esses pensamentos todos e nos voltaremos para o que importa de verdade.

A mente esvaziada de banalidades, aquelas tantas besteiras inúteis, as contas a pagar e que horas são, e ainda preciso entregar aquele relatório, maldito relatório, odeio relatórios, odeio sobretudo entregá-los a meu detestável chefe, logo cede espaço a uma sensível percepção do ambiente. Meu olhar recai sobre a garrafa térmica vermelha que Verônica deixou à mesa antes de sair. O gole me desce quente e reconfortante pela garganta, sem o peso do hábito ou a busca racional por cafeína. Eu caminho lentamente para fora da casa e sento à grama para ouvir o disco do Boldrin.

Ainda inspirado pelo sol, vejo a velha Barra Forte esquecida ao lado do carro. Quantas vezes o bagageiro já conduziu amigos embriagados à sóbria segurança de seus lares, ou uma Verônica de perna quebrada como um peso extra na garupa. Por meses não conseguiu caminhar depois do tombo que levou no casamento da irmã. Quero tocá-la e meus dedos escorregam suaves pela bicicleta, como um músico que dedilha o piano há muito abandonado ao canto da sala. Não sinto vontade de dirigir, embora faça isso todos os dias, e num impulso afetivo saio de casa pedalando até a avenida principal da cidade.

Mas sem planejar eu mudo o rumo do trajeto. A longa estrada que leva os trabalhadores do bairro aos seus ofícios diários também conduz ao mar quem se atrever a tomar o caminho contrário. Não muito longe dali havia a praia, pouco frequentada durante a semana, substituída pelos prédios com seus relógios de ponto. Sinto a pretensão de vê-la. Quero um dia na companhia do mar.

O tempo segue meu até o anoitecer, entre peixes e mergulhos, do cheiro de maresia ao sol e céu e sal, quando a lembrança da casa onde moro me faz subir à bicicleta e retornar. Verônica sorri quando abro a porta, cheio de suor e de saudades. A poeta é ela, mas antes de rumar o banho e cortarmos a cebola sou eu quem anota num pedaço de papel:

É ela, Verônica
que matiza esta
vida marginal
mulher biotônica
de tom e de cor
e som acima do som
supersônica.

Talvez amanhã eu acabe calculando uma desculpa qualquer para me justificar no escritório. Tive diarréia, ou a Verônica teve diarréia, ou – inacreditável, eu sei! – fui vítima de um terrível furacão que atingiu apenas a minha casa e me manteve soterrado e preso aos escombros. E os bombeiros só chegaram às 18h, depois do expediente, vejam só como está esse país.

Mas hoje não me importo com nenhuma destas bobagens, porque escolhi sentir.

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Distante das Linhas de Nazca 0 165

Thiago Orlando Monteiro

Alguns vazios aumentam sempre que tentamos preenchê-los. E geralmente, porque tentamos preencher com algo que não nos cabe, ou no mínimo não nos pertence.

Não há muito que se ver aqui em cima. Menos ainda há o que se orgulhar. O cinzeiro está transbordando de cigarros. Por cima da mesa são quatro maços vazios e mais um pela metade. Tem outro vazio que não dá pra ver, embaixo do sofá, mas isso é sobre outro dia. As latinhas de cerveja entulhavam a mesa de centro até agora pouco, agora só restam sete, as outras estão sobre a pia. São quatro e meia da manhã, não há mais tempo de se arrepender de nada.

O fluxo de ideias vem numa vertente capaz de mudar o curso de um rio. São dois furacões que espalham tudo o que acabaram de criar. Instantes após o caos a calmaria tenta se fazer presente. Mas não. Esse tipo de sentimento não é bem-vindo, não agora. O cartão de crédito transforma a pequena montanha em linhas. Tudo começa novamente. E só acaba um grama depois.

Nossos impulsos ruem nossa integridade. E como costuma acontecer, ruínas geram ruínas.

O nascimento do sol enfim consegue barrar o curso desse desastre natural. A sensatez, rara nessas condições, permite que três latas de cerveja descansem na porta da geladeira. Um banho quente ajuda a relaxar o corpo. Mas agora, nada é capaz de parar a mente. Já debaixo do lençol o coração bate como uma britadeira. O medo da vida toma conta outra vez. É curioso como tudo sempre lembra o seu contrário. Minha maior vontade era de não estar aqui. Perto de tudo o que me corrói e tão distante das linhas de Nazca.

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Tho

Carta a Hunter S. Thompson 0 117

A temporada de futebol americano ainda não acabou. Ainda faltam bombas. Faltam andanças. Faltam confusões. Ainda falta muita diversão. Que venham mais 67. Mais 17. Que apenas venham. Mesmo que doa. Mesmo que canse. Mesmo que seja obrigado a conviver com o gosto de cloro. Talvez isso não seja plano para mais ninguém. Não importa. Que sigam os jogos, a temporada está só começando.

 


 

Carta de suicídio de Hunter S. Thompson:

“A temporada de futebol americano acabou.

Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de andanças. Chega de natação. 67 anos. São 17 acima dos 50. 17 mais dos que necessitava ou queria. Aborrecido. Sempre grunhindo. Isso não é plano, para ninguém. 67. Estás ficando avarento. Mostra tua idade. Relaxe. Não doerá”

 


 

Gabriel Protski