Ateliê 6 830

“Você é magro e orelhudo. Se bater um vento você voa” caçoava o maior rapaz sobre o pequeno. Ao redor, vários outros riam da piada tantas vezes repetida. Pintados com óleo sobre a tela, os cúmplices da cena guardavam um realismo admirável e imenso cuidado com os detalhes, dignos de um Rembrandt. Quem dera a pintura fosse de Dali, então quem sabe o vento, em um ímpeto surrealista, pudesse arrastar para longe o menino orelhudo. Seus algozes se afogariam em gargalhadas, mas ao menos o menino não estaria mais ali para ouvir. Ou quem dera fosse um Van Gogh, que com traços espessos viesse lhe cortar fora as orelhas, acabando com o motivo de toda a desgraça. Mas não, mantia-se ali a troça indefensável sobre o pobre coitado.

Ao lado, um casal de jovens digladiava num alto relevo. Em verdade não eram um casal, embora um deles quisesse que fossem. E era justamente esse o tema da discussão, naquela obra talhada em madeira, chamada O Toco. “Eu te amo, me dá uma chance” implorava o rapaz. “Você sabe que eu não sinto o mesmo por você” respondia a moça, menos delicada do que sua saia rodada. “Não é possível que não haja nada por trás de toda essa amizade” insistia o coitado, com cara de pau talhada pelo formão. “Não” ela respondia, “nós somos só amigos, e é isso que sempre seremos”.

As paredes falavam naquele lugar. Na parede ao fundo, por exemplo, um homem proferia um ferino discurso no afresco chamado Olho da Rua. Engravatado com toda sua pompa, erguia um braço apontando para algum lugar. A pintura desse braço estendia-se pela porta e, na extremidade do dedo indicador, encontrava-se o olho mágico. Aquele círculo de vidro, aliás, parecia ser o único contato com o exterior daquele cômodo, com entrada lacrada e sem janelas.

Com tal proteção e tantas obras de arte, não estaria longe da verdade quem pensasse que estávamos na ala de algum museu, ou mesmo num cofre de colecionador. Contudo, estávamos, em verdade, dentro de um ateliê. Um quartinho isolado nos fundos da casa de um artista ainda desconhecido pelo mundo.

Ali, ele exercia seu talento para as mais diversas artes plásticas, desde que era garoto. Orgulhava-se de sua primeira obra, uma escultura conceitual feita com cintas de couro, que entrelaçadas entre si, como serpentes, ocupam posição de destaque no local. A Surra era seu nome.

O artista já acumulava um acervo de mais de cinqüenta peças de sua autoria, mas não faltavam novas inspirações para continuar sua obra. No momento, trabalhava em um nu artístico com acrílico sobre a tela. A mulher nua apoiava-se em um móvel e segurava um cigarro aceso na boca. Não era belíssima, mas sem dúvida desejável. Suas gordurinhas lembravam os nus de outrora, quando os excessos eram valor, e não defeito. No entanto, seus grandes seios e seu olhar provocante faziam-na atraente para qualquer época. Ela olhava com desdém para fora da tela, visivelmente decepcionada após uma foda malsucedida. Tirava o fumo da boca e dizia “Que merda foi essa?”.

Assim ele fazia. Transformava os pequenos infortúnios cotidianos em arte. Muitos outros artistas também, mas dificilmente com tanto cuidado. Este tinha apreço pelos detalhes de cada situação. Alguns poderiam achar que por mero perfeccionismo, mas, em verdade, fazia isso para que se lembrasse. Para ter certeza que sempre poderia voltar a reviver cada momento em suas minúcias. Cada ato, cada rosto.

Se alguns homens levavam desaforos para casa, podíamos dizer que este não só os levava, como os colecionava. Com cada sapo que engolia, fazia de seu ateliê um brejo de ressentimentos. E quando aquele pequeno quartinho não mais suportasse novas obras, seria o momento de revelá-las ao mundo em um derradeiro quadro, sarapintado com os mais diversos tons de sangue.

Murilo

Crédito Imagem: Franck Réthoré via Compfight cc

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Escala de Baumé 0 2219

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Vida comum parte 1 0 2853

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.