A tempestade de cada um 0 667

Existe uma tensão no céu pra anunciar a tempestade que vem chegando. O dia escurece, as trovoadas brilham por todo o horizonte e ecoam com brutalidade que estremece o chão. Há areia por toda parte, e já é difícil não fechar os olhos, o que pra mim é sempre uma vantagem. Não se medita de olhos abertos, não é mesmo? O povo todo da vila já se recolheu e as senhoras acendem velas para Nossa Senhora dos Navegantes, mas não há muito a se fazer nestas situações. Alguns ainda dizem que aqui é o paraíso.

Ter a idade de um ancião não me beneficia em tantas coisas, como hoje é bastante claro. A vida me proporcionou o conhecimento em troca da disposição e força física, das horas de sono e dos meus amores. Muitos anos depois de ter constatado esta verdade incômoda, finalmente compreendi que o conhecimento chega em seu próprio tempo, que é diferente para cada pessoa. Alguns compreendem a vida cedo o bastante pra conseguir moldar o caminho da forma que for necessário enquanto há força e disposição, para que os grilhões da idade cheguem quando a bagagem da vida já não for mais tão pesada. Comigo não foi assim. Levei muitas décadas para aprender a me virar sozinho, a montar uma casa e cuidar do meu próprio barco. A saber a hora de jogar a rede, e principalmente quando recolher. Pouco tempo depois começaram as dores nas costas. Restou-me a meditação.

Ando em direção à última janela aberta, e avisto uma jangada no fundo do horizonte. É um dos nossos, não há dúvidas. Mas quem diabos estaria lá, com toda aquela tranquilidade enquanto o fim dos tempos toma corpo nos céus? Saio apressado carregando todas as minhas dores até a beira do mar, tentando gritar. É Francisco, e com certeza está adormecido. Como não tem a obrigação de trazer o peixe para a mesa de casa, é sempre levado pelo silêncio e cai no sono. Ou então fica rindo consigo mesmo enquanto relê um de seus gibis. Diz que sempre encontra uma piada nova, ou que entende a antiga de maneira diferente, e esta volta a ser engraçada. Não me entenda mal, Francisco não é uma má pessoa. Pelo contrário, tem um coração puro e o espírito otimista. Se estivesse mais disposto a fazer o que precisa, poderia ser o dono de todo o litoral, mas sempre acaba adormecendo ou relendo algum de seus gibis.

Grito seu nome repetidamente em vão. Ele não me ouve, e acho que não teria ouvido nem que estivesse a dez metros de mim. Não há ninguém por perto. Somos eu, ele, as dores nas costas e o apocalipse. Não há tempo para pensar, e faço o que qualquer homem da vila teria feito: arrasto um dos barcos até a água e saio navegando rumo ao nosso fim, que fica mais claro a cada relâmpago.

Meus braços já estão completamente caídos e ainda falta mais da metade do caminho. Não há força suficiente para me levar até lá, e muito menos para nos trazer de volta à terra. Resta-me agir como as mães desesperadas e gritar seu nome, na última da esperança de que pelo menos um de nós consiga retornar ao lar em vida. É inútil, ele não me ouve. Me deixo cair de joelhos na pequena embarcação, e fecho os olhos pedindo a ajuda de Nossa Senhora, que me tirou dos mares por algum motivo que desconheço, que tire também aquele rapaz que ainda tem muitas ondas pela frente. Antes que termine minha pequena reza, ouço um novo trovão, o mais alto até agora. Dou um salto de susto, e vejo que Francisco também ouviu. Levanta assustado, desperto do sonho para cair no pesadelo da vida. Ele me vê acenando ao longe e parece se desesperar. Não é hora pra isso, Francisco. Desespero é para quem tem tempo. Reme, reme, reme! Venha para a terra, ainda há muito a se fazer. Reme, Francisco. Só você pode se salvar desta tempestade. Eu já não tenho mais forças. Eu já não tenho mais tempo. Só resta você.

André Petrini
Foto: Brent Pearson / cc

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Escala de Baumé 0 2195

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3456

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai